Por que assistir | Crítica: I may destroy you (2020)

janeiro 15, 2021

Poderia ser apenas mais uma produção de crime e violência contra a mulher, como as que abundam nos streamings dos últimos anos, na ficção e no documentário. Entretanto, a série ultrapassa o 'estereótipo' e ganha o brilhantismo das grandes produções que a HBO traz de tempos em tempos. Necessário e intrigante.

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Cultura e tradição

Há uma tradição na noite de Natal na Islândia, em que as famílias se reúnem para trocar livros e contar histórias em torno das lareiras. O país é um dos maiores consumidores de livros e, em 2003, foi nomeado pela Unesco como a capital literária do mundo. Como se não bastasse, é um dos mais pacíficos também e, talvez por isso, tenham tanto interesse e curiosidade por histórias policiais e de horror.

Por outro lado, fora desta zona quase mágica de conforto, segurança e qualidade de vida, encontramos um volume expressivo de produções audiovisuais que retomam o tema da violência doméstica e das diversas violações e abusos sexuais no Brasil, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Ao colher dados estatísticos destes países, encontramos oposição aos números da ilha do gelo e então entendemos que estas produções são, na verdade, alertas de um comportamento doentio, repetitivo e, infelizmente, cultural destas nações.

Dentre todas, uma série que se destaca por um conjunto de fatores é I may destroy you. Dirigida, escrita e protagonizada por Michaela Coel e lançada em 2020 pela HBO, a série de 12 episódios conta a história que a própria artista viveu, ao ser drogada e estuprada em um bar em Londres. A Inglaterra acumula dados vergonhosos deste tipo de violência, associados à ineficiência policial em resolver as denúncias. Por lá, 85 mil mulheres e 12 mil homens sofrem algum atentado sexual violento por ano.

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Michaela Coel e Marouane Zotti | I may destroy you

Por que assistir

Não apenas por ser um tema que nos marca e ameaça todos os dias - todas e todos nós conhecemos alguém que já viveu ou vive alguma experiência de relações abusivas, estupro, assédio ou atentado sexual violento, quando não somos nós as próprias vítimas - como por ser uma grande e sensível produção.

A construção da narrativa provoca corações e mentes mais conservadoras, as mesmas que lutamos para trazer alguma clareza com as afirmativas óbvias de que ela não teve culpa por ter bebido, por estar sozinha ou acompanhada, por estar com roupa curta, por sair à noite, por viver. A série nos estimula a pensar mais sem se impor didaticamente, especialmente quando traz uma personagem com múltiplas camadas, dando uma humanidade não apenas a ela, como a seus coadjuvantes. Os amigos de Arabella (Michaela Coel) ganham peso e trazem também histórias que ilustram com nuances o que é possível viver em torno do tema.

Eles são como nós, como ela. Vivem o dia a dia em uma grande cidade, pagam contas, trabalham, se relacionam e tentam se proteger. Nos tempos de redes sociais e paqueras através de aplicativos de relacionamentos, há uma zona cinzenta de intimidade e permissividade entre os corpos que pode ser amplamente debatida e que também aparece aqui, interligada com a insegurança que estes encontros com desconhecidos provocam.  

As diversas histórias por que vivem os personagens nos deixam atônitos e com o coração na mão, porque nos ganham na empatia, no reconhecimento e na solidariedade. Nos identificamos com muito do que acontece ali e nos vemos - e já vivemos - situações similares, que nos fazem repensar as nossas próprias relações de amor e amizade e histórias.

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Michaela Coel e Weruche Opia | I may destroy you

Estupro e permissividade

Há quem ache que se precisa explicar e justificar sobre o tema. O estupro, como sabemos, é um crime de vergonha não por quem comete, mas por quem sofre. Instituiu-se uma ideia na História do Mundo de que - especialmente tratando-se de mulheres - elas têm sempre a culpa por terem sofrido algum atentado ou terem sido estupradas. O dito é tão comum que sai arrastado com cansaço pela digitação no teclado, como se isso fosse mais óbvio do que o resultado de 2 + 2.

O que é preciso expor sempre e repetidas vezes é que não há permissão de nenhum tipo quando há estupro. É como uma antítese, são conceitos que se excluem, habitam o mundo da alteridade se aparecem juntos. Como os pólos de repulsa dos ímãs. 

I may destroy you desenha isso com uma sofisticação que quase nos tira lágrimas - não pelos crimes, mas pela forma plena e bonita ao tratar do tema. São diversos os mecanismos de violência, são muitas as sutilezas e brutalidades e por isso a necessidade de proteção. Por um gesto de descuido, como não levar a amiga para a casa, algo se perde no caminho. E a série traz isso e outros grandes momentos que não culpabilizam ninguém além dos agressores - como deve ser - e até lhes garante alguma humanidade, onde isso é possível. É um risco acertado, se pensarmos que a monstruosidade pode habitar em todos nós em alguma medida.

Crítica de I may destroy you, nova série da HBO
Paapa Essiedu | I may destroy you

Beleza no caos

Para além das variadas condições da violência expostas de tal forma a dirimir as dúvidas de como ela se manifesta, a série traz um panorama vivo do hoje, quando se fala em cultura urbana e comportamento.

A seleção do elenco foi excepcional. Da maioria negra, voltamos, como em Insecure (também lançada pela HBO), a trazer qualidade na diversidade, dando voz e vez a quem é de direito, com as questões de cor e gênero. A tecnologia permeia os assuntos, assim como o comportamento nas redes sociais, do uso excessivo ao útil. O ganhar a vida também. O início das carreiras, o reconhecimento e a busca por um lugar ao sol, vencendo preconceitos e estereótipos ou aprendendo a conviver com eles sem reforçar ou renegar as próprias origens. 

Ainda, há os desafios em se relacionar sob o signo do hibridismo e da fluidez que dita as regras da década. A intimidade - construção que requer tempo para firmar o alicerce que é conhecer o outro - perde espaço para o imediatismo, evoluindo de uma catarse eventual, como o Carnaval, para o querer muito todos os dias, recebendo quase nada em retorno, como um vício que corrói seu usuário. O vazio se vê no olhar de Kwane (Paapa Essiedu), um dos - grandes - atores da série, que se encontra com outros corpos, retornando sempre com a espera de uma nova aventura, ocupando o espaço de algo mais consistente que levaria outro tempo para germinar.

I may destroy you não força o tom, mesmo com o peso do tema. É preciso ter atenção com os possíveis gatilhos, entretanto. Quem viveu ou vive situações como a de Michaela e seus amigos (quase todos nós, arrisco dizer, em maior ou menor escala) e tem isso ainda cicatrizando, precisa tomar cuidado. A série dá a tônica de seus temas com a velocidade do cotidiano do adulto entre os vinte e muitos e trinta e poucos anos em qualquer cidade grande ocidental. Entre os dribles para escapar das violências e o gosto agridoce do crescer, vale aproveitar as cores de uma fotografia que ressalta os tons, como uma música que emociona, entristece e até enraivece, mas que não queremos que pare de tocar. 

Enquanto não vivemos a vida pacífica dos crimes de ficção literária da Islândia, seguiremos com produções como esta, que trazem histórias reais e atuais, estimulam o debate e alertam para os infelizes perigos que nos rodeiam, dentro e fora de casa. Neste caso, sem esquecer o entretenimento e a grandiosidade de uma produção exemplar. Que rode o mundo. 

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O que a gente tem que buscar é a alegria, essa se esconde delicada na correria dos dias, não se oferece de pronto, quer ser encontrada, surpreendida, amada.

Tudo é rio, Carla Madeira

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