Por que assistir | Crítica: Modo avião (2020)

by - outubro 25, 2020

Neste 2020 de pandemia, Modo avião é o filme de língua não-inglesa mais visto da Netflix. Com esse dado, resolvi assistir para entender o sucesso estrondoso de nosso cinema. A outra notícia é a de que a Globoplay superou o número de assinantes da Netflix no Brasil. Mas, o que as duas informações têm em comum?

larissa manoela e erasmo carlos juntos em modo avião, filme da netflix.
Modo avião | Larissa Manoela e Erasmo Carlos

História sem peso

Modo avião é um filme leve que carrega um elenco mediano, com destaque para Erasmo Carlos e Larissa Manoela. O primeiro todo mundo conhece, grande cantor e compositor da Jovem Guarda e fora dela, parceiro de Roberto Carlos. Erasmo tem grandes composições talvez até mais interessantes do que as do amigo, mas essa conversa é outra. Larissa Manoela é uma atriz de 19 anos que, em tempos de influenciadores digitais, faz um pouco de tudo: é cantora, influêncer, youtuber, tem produtos licenciados e grande e fiel público. O filme se aproveita do paralelo destas duas vidas e traz uma história para toda a família.

Ana (Larissa) é uma jovem influenciadora digital de São Paulo que vive do instagram. Mora na casa dos pais e ilustra bem o perfil das 'blogueirinhas' que criam a rotina de seu personagem-real para a câmera-celular. Vivem aquele dia a dia tão cronometrado para a 'produção de conteúdo', que criam a ilusão de que suas vidas são o que postam nas redes. Os pais a criticam muito superficialmente e Ana vive 'sem controle', entre o trabalho, as batidas de carro por usar celular e muita marra. Um acidente muda tudo.

Com o ocorrido, é enviada à casa do avô, Germano (Erasmo), em uma cidade pequena sem sinal de celular. Ela precisa se adaptar à nova realidade e aprender um pouco sobre a vida real sem redes. É nesse momento que os personagens se encontram e vivem sua transformação. Nenhum problema até aí, a estrutura narrativa é bem definida. O que falta é peso.

O filme corre como se tudo se resolvesse organicamente e até um acidente de carro não gera graves consequências ou reflexões. Como se dirigir com o celular não fosse coisa séria. Como se adaptação a uma vida sem celular não fosse tão dramática para uma garota que vive daquilo. O que parece ser uma 'leveza' no filme, vira uma água morna e quase sem gosto. O personagem mais crível é a mãe de Ana que, mesmo assim, parece amarrada em um roteiro fantasioso demais para ser pautado 'na vida real'. Talvez seja um deslize na dramaturgia ou a própria intenção de deixa solto, talvez precisasse de mais um tratamento de roteiro ou mais complexidade aos personagens. Ainda assim, dá para entender o sucesso e é fácil de assistir.

elenco de modo avião busca a diversidade, sem explorar a diferença.
Modo avião | elenco que busca a diversidade

Filme de língua não inglesa mais visto na Netflix

Modo avião chegou no ano da pandemia. Todo mundo em casa, muita crise de ansiedade, tédio, medo. Muita gente 'de saco cheio' e navegando na netflix e nos outros streamings em busca de filmes e séries para preencher o tempo e que não ocupem muito a mente. Nada que fosse muito dolorido, nada que trouxesse mais drama mas, pelo contrário, que viesse como algo de consumo rápido e indolor. Era preciso que algo nos tirasse, por alguns minutos, daquela avalanche de informações horríveis acerca da política, situação mundial e local, economia, saúde.

Com isso, o filme vem e é bem aceito. Todos os maiores problemas se resolvem quase como mágica. Um pouco de brasilidade, mas nada que localizasse demais o país - não é um filme 'cultural' - e, assim, ele ganha mais facilmente o mundo, como uma produção americana padrão ou um pouco como os doramas mais urbanos. Acompanhamos as produções coreanas como se fossem feitas em nossa esquina, com temas universais que não apresentam tanto a cultura local, mas focam em um padrão de vida que se encontra em quase qualquer país.

Larissa Manoela puxa o público jovem para perto, traz as meninas que são influenciadoras para a grande tela, chamam a nossa atenção com uma intenção de crítica e responsabilidade quanto ao uso das redes, sem aprofundar. Ao mesmo tempo, atrai as pessoas influenciáveis, seu público fiel que mimetiza comportamentos e é estimulado para o consumo. Esse é o pulo do gato, o tema é atual, recorrente e interessante. Todo mundo segue alguém nas redes sociais. Todo mundo é influenciado por alguém ou alguma marca e sempre há a curiosidade sobre os modos de viver do outro. A confirmação vem do próprio mercado: grande parte da seleção do elenco de filmes e programas baseia-se menos em talento e mais em seu público nas redes sociais. Larissa Manoela tem 35.7 milhões de seguidores no Instagram.

Além dos jovens usuários das redes, a questão dos influenciadores atrai também seus pais para o tema. Faz com que eles se aproximem dos usuários das redes, sejam produtores ou seguidores, para a conversa do café da manhã. Além disso, encontram seu ponto de atração: Erasmo Carlos. Sempre bem aceito, o Tremendão é um cara legal, traz a nostalgia do 'no meu tempo era assim', junto com um personagem que precisa mudar, precisa conhecer a neta e melhorar a relação com o filho. É uma segunda história que corre rápido, não é o foco do filme e se resolve com duas ou três cenas para compor. Em todo caso, fica a ideia de que é sempre bom ver Erasmo Carlos aparecendo, como uma boa e inesperada notícia, um reencontro com um amigo de longa data. 

a rotina dos influenciadores digitais em modo avião.
Modo avião | influenciador digital como modo de vida

Cultura do entretenimento

O Brasil vem remodelando sua ideia de entretenimento no audiovisual. Com a Netflix forte no país desde a sua chegada em 2011, o comportamento do consumidor mudou, do mercado também. Aqui e no mundo, vemos um público mais ativo, que demanda mais determinados tipo de produção e descarta outros, com uma personalização cada vez maior. Assim, a tv paga precisou se reestruturar e repensar seu negócio, refletindo nas produções de cinema e tv e em toda a indústria audiovisual.

A parte boa é que se verificou uma abertura de visão para a oportunidade e a diversidade. Conteúdos mais leves, como o que se faz no cinema americano, começaram a ser feitos aqui. Saímos da safra de filmes estritamente culturais, históricos, de denúncia e passamos ao lazer "sem culpa". Ao mesmo tempo, com a personalização provocada pelos algoritmos, se percebeu uma diversidade maior de gostos e como esse volume que se queria homogêneo, de público, se provou diferente, interessado em uma vasta gama de assuntos. A diversidade de público ensaia uma diversidade de produção e então começamos a ver uma abertura tanto para um elenco menos padronizado em gênero e cor, quanto para temas que ampliam nosso olhar como as temáticas feministas, de gênero, comportamento, culturas.

Neste contexto, Modo avião é tímido. Ele traz um elenco que se quer diverso com um tema relevante, mas focado no entretenimento. É importante uma ressalva: os extremos não são necessários aqui. A cultura é imbuída de entretenimento e vice versa. Um não existe sem o outro e um não é o oposto do outro. Todo produto é cultural pois re-apresenta parte de nossa cultura. A diferença é o quanto disso é efetivamente um traço que nos identifica enquanto país ou região ou se apenas reproduz um comportamento sem localização. Modo avião está na segunda opção.

Voltando ao entretenimento, o filme ganha espaço. Se não insistirmos na crítica sobre sua supeficilidade, mas pensarmos na relevância do tema e abordagem, encontramos o motivo. Ele conquistou o mercado internacional em um momento econômico difícil, mas em um período de crise propício: estamos ávidos por qualquer coisa que nos tire da realidade. Seriados de comédia, filmes históricos, documentários sobre qualquer coisa. Estamos vendo tudo. Se for sobre algo que vivemos no dia a dia - as redes - é um acerto. E então, o filme merece o alcance internacional. 

eike duarte e larissa manoela em modo avião
Modo avião | a vida de influência influencia na vida real?

A Globoplay e a Netflix

A Globoplay chegou forte. Com cinco anos no mercado, em 2020 conquistou o primeiro lugar na casa dos brasileiros. Vencer a Netflix é um marco importante, tendo em vista que estamos falando de um produto Globo, uma empresa nacional, batendo em uma imensa indústria que tomou todo o mundo. O investimento foi alto e o que fez a diferença foi o acervo - além da propaganda.

Com muita produção brasileira - basicamente tudo o que foi produzido pela Globo por décadas e o que se comprou de grandes produtoras - esse cabo de guerra tem sido puxado mais para o nosso lado. Com isso e a certeza de que essa disputa de protagonismo será longa, é possível perceber que há espaço para a produção nacional. E que, com isso, a concorrência pode estimular a qualidade e favorecer o mercado.

Com a desaceleração da pandemia - e a esperança de que a segunda onda não chegue aqui - algumas produções foram e estão sendo retomadas, em uma tentativa de reaquecer a indústria cultural. A pandemia revelou para muitos o que o crescimento de todos os streamings (e lives musicais) provou com dados e base de assinantes: sem cultura não há como viver. Imagine vivermos o isolamento social sem filmes, programas, seriados, música? Sem aquele cinema bobo e leve para passar o tempo? Sem um bom programa para ver com a família, a dois, sozinho? A produção cultural é necessária não apenas como uma realização e registro de como vivemos e somos, mas como uma forma de entreter, para promover a criatividade, sociabilidade, conforto e reflexão em nossas vidas. Hoje estamos com Modo avião, querendo nos ver mais na tela, em produções que nos idenfitiquem e que encerrem de vez aquele preconceito velho quanto ao que se cria aqui. O que veremos amanhã?

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Vamos manter a conversa sempre viva? Me ajuda com um cafezinho? =)

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