Do lado de cá: vivendo o novo normal

by - outubro 22, 2020

Venho sem desculpas e meias palavras: não gosto dessa expressão "novo normal". Explico o porquê, porque entendo como surgiu e o que significa. Além das atualizações, claro.

o novo normal e como lidamos com o dia a dia de novos comportamentos na pandemia.
balcony concerts by Catherine Cordasco, @unitednations
A proposta do lado de cá é fazer o contraponto das minhas experiências no Brasil da pandemia e do isolamento com a situação da minha comadre de primeira viagem, Camila. Ela está grávida, esperando Luquinhas e mora no outro lado do oceano, em Dublin. Do meu lado, a vida também mudou quase toda: mudei de cidade, saí do trabalho, um pouco aquelas histórias de filme, em que a vida da mocinha vira do avesso, ela tem que encontrar um novo caminho e acaba numa comédia romântica. A parte romântica da comédia ainda não está definida, mas o importante é ter fé!

Camila vive o dia a dia também afetado pelo coronavírus, que já passou por um isolamento mais fechado, a situação melhorou e agora, como sabemos, a Europa vive a segunda onda da pandemia. Não sabemos como vai ser, mas os países se preparam para um novo lockdown e ela segue um pouco descrente, tendo em vista o comportamento do cidadão irlandês. E a gente achando que só a nossa turma era indisciplinada. Enfim.

Do lado de cá, a vida segue aos atropelos. E essa história do novo normal que, junto com a pandemia, vem de todas as formas e meios. Todo mundo fala nisso, como se fosse uma coisa universal. A única coisa universal mesmo é a globalização e que, mesmo assim convenhamos, não é global. A gente não sabe o que acontece no mundo todo, não tem acesso a todo mundo. Hoje, descobri o inferno que está sendo a vida na Nigéria com uma força policial chamada SARS - com cara de milícia - brutal, talvez até mais do que a nossa. Claro, a informação e os transportes ficaram mais acessíveis, contudo, global é muito absoluto. E os algoritmos acabam nos fechando em bolhas, de qualquer jeito.

pandemia e novos hábitos. o que é o novo normal?
Erik Odiin, unsplash

Então, o novo normal está aí. A expressão indica que antes havia um normal, chamemos de velho normal. No velho normal, era tudo igual ao novo, à exceção do uso de máscaras em vários países. O álcool gel já existia. A gente não higienizava o supermercado inteiro, isso é verdade, mas o hábito de lavar as mãos sempre foi uma realidade. E o home office também. Menos frequente e intenso, mas presente. A história de deixar os sapatos na porta de casa também - especialmente se você mora sozinho e não tem muito tempo. E vamos lembrar que isso vale apenas para uma parcela da população. Mas, deixemos esse ponto sensível para outro dia.

Entretanto, apesar de ler e ouvir muita coisa genérica sobre o tema, ontem me caiu um texto que foi mais assertivo, que mostrava como o novo normal não é geral, amplo e irrestrito. Que, ao contrário, é específico, individual e particular. Sendo assim, não há um novo normal. Há uma adaptação à situação imposta e alguns pontos em comum com outros viventes, mas nada que se imponha 1. como novo e 2. como normal. A própria ideia de 'normal' já é desconstruída largamente por aí, na literatura de O Alienista, do sempre incrível Machado de Assis e em muitos estudos sobre saúde mental. Com isso, vamos parar com essa generalização, essa imposição da norma - aí sim, a origem do normal - como se tivéssemos que seguir uma cartilha que identificasse o que é novo e velho normal. Nada é normal. Aliás, nem o nada é normal.

Depois de vir aqui provocar, conto que a vida anda corrida. Muita coisa pra resolver de mudança e adaptação a Salvador, à pandemia e ao retorno de alguns hábitos. À vontade sempre crescente de encontrar os amigos, ao medo da doença e de seu espalhamento. Situações e imprevistos familiares, projetos empolgantes e até uma novidade que vou trazer aqui quando estiver mais ou menos pronta. Estou disposta a mais uma mudança porque, mesmo nesses tempos de suposta estagnação - taí um ano que está sendo diferente de qualquer outro - seguimos adiante. 

novo-normal

Já fui à praia, entrei no mar e agradeci. Por estar viva e com saúde. Por estar em Salvador, por ter a família perto e os amigos também - na distância de um aperto de mão ou aceno - ou ali, no fio do telefone, na tela do celular. Sou muito grata - sem essa agonia sem sal de #gratidão - em ter os amigos que conquistei. E esse ano, um desafio daqueles, tão difícil e doloroso algumas vezes, tem sido também tão feliz em ver novas vidas surgindo, amores crescendo e se multiplicando. Só aceito o novo normal se ele significar mais amor compartilhado, empatia e cuidado com o outro. O resto é propaganda pra vender jornal e marketing para vender coisa.

Mas, talvez eu esteja errada. O que você acha do novo normal? É novo? Normal? Me conta um pouco da sua adaptação, de como anda a vida do seu lado.

Para contribuir com esse blog maravilhoso e torná-lo permanente e atualizado com frequência, me chama para um cafezinho? =)

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