Por que assistir | Crítica: O dilema das redes (2020)

by - setembro 13, 2020

Muita gente vai pensar que é um filme mais do mesmo, que todo mundo fala sobre isso todos os dias e que nós, humanos conscientes, sabemos onde estamos nos metendo quando se trata de facebook, instagram, pinterest... O fato é: O dilema das redes (the social dilemma) está na netflix precisa ser visto agora - mesmo que você ache que já sabe tudo sobre o assunto.

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  O dilema das redes (2020), Jeff Orlowski

Todos nós estamos cansados de ouvir falar no assunto, de discutir sobre redes sociais e fake news ou de ver que alguém em nossa família votou no candidato errado e se arrependeu, por não saber no que estava acreditando naquele momento. Então, qual é o diferencial deste filme? Onde está a grande novidade?

O dilema das redes aprofunda o assunto, ao trazer para a conversa os profissionais do faceook, google, instagram, pinterest. As pessoas que pensaram os algoritmos, as narrativas digitais da redes, que estudaram o nosso comportamento para ver, de que forma ganhariam mais com o nosso consumo de informações. Tristan Harris é um ex-designer ético da Google - função que eu nem sabia que existia - e ele tem uma frase certeira que marca todos os textos e mídias sobre o filme, inclusive: se o produto é gratuito, você é o produto. Mas, o que isso quer dizer na prática?

As redes sociais trabalham com informação. Elas recebem receita de publicidade, da propaganda de venda de itens de consumo. Mas, como elas fazem isso de verdade? Enquanto a televisão aberta exibe uma propaganda para todos os consumidores sem distinção, as redes sociais buscam o consumidor ideal, a pessoa que, por análise de consumo de mídia - as curtidas, compartilhamentos, comentários, amigos e conhecidos envolvidos, endereços de moradia, trabalho e lazer e, claro postagens e frequência - pode se interessar por determinado produto. 

E qual é o pulo do gato que transforma filme O dilema das redes em algo interessante? Esta frase. Porque ela traz a ideia crítica de que nós fornecemos as informações às redes, nós entregamos todas as formas de alcance possíveis. E de graça. Os clientes não somos nós, são os patrocinadores, que receberão o retorno do investimento por saberem que estão alcançando o público certo no momento certo.

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Levando tudo isso em conta, já vale a pena ver o filme por aí, mas ele expande o tema, a fim de tornar ainda mais claro, com exemplos dos riscos que corremos, das consequências que já estamos vivendo e de forma bastante atualizada. Coronavírus, eleições presidenciais vencidas através das fake news - Bolsonaro, Donald Trump, Putin, terraplanistas, pizzagate. Vemos um mundo de histórias sobre supostas conspirações que partem do nada e vão a lugar nenhum, mas que ganham tantos adeptos, que começamos a nos perguntar, como alguém questiona no próprio filme - se essa massa de pessoas pode ser realmente estúpida ou apenas, se está mal e mau informada.

Não é uma obra brilhante do documentário mundial em termos de estética e cinema, se formos criticar enquanto tal. É um filme informativo sobre os assuntos que nos interessam como indivíduos e coletividade. É feito para repensar nossos hábitos de consumo de mídia, informação e redes sociais. É para nos preocuparmos com nossos familiares e como as redes também os afetam e de que maneira - vide os índices de depressão, transtornos de ansiedade e suicídio. Não à toa, os pais de família e profissionais das redes proíbem seus filhos de as utilizarem.

O fiilme é, por fim, para nos fazer refletir sobre a veracidade dos fatos - o que, por si só já é um termo bastante discutível. Há um posicionamento sobre isso no filme, que questiona a verdade, justamente onde ela está. Existe uma verdade? Quem define o que é verdade e real e correto no mundo? Não existe um algoritmo capaz de fazer isso. Se formos pensar em filmes anteriores que retomam isso de forma mais lúdica, aposto que muitos vão lembrar de Matrix e O Show de Truman, quase imediatamente. Os estudiosos de comunicação e sociedade buscarão Guy Debord e Walter Benjamin ou Margaret Atwood, George Orwell e Ray Bradbury na literatura. Estamos todos falando sobre o mesmo assunto, no fim das contas. 

Não devemos nos preocupar apenas com a vigilância sobre nossas vidas ou com o volume de informações sobre nós que depositamos nas redes, mas como isso nos afeta e como isso afeta as informações que recebemos em qualidade, intenção e quantidade. Quando dizemos 'algoritmo da netflix me pegou' e agora só me mostra filmes e séries de determinada categoria, é apenas a explosão óbvia do filtro de conteúdo a partir de nossas preferências. O que não atentamos sempre é que este mecanismo funciona para todo os resto na internet e nas redes.

O filme também não levanta a bandeira de: nunca frequente redes sociais. Ele apenas diz: preste atenção. Fácil de ver como entretenimento para além da curiosidade e relevância da informação, o filme deve ser visto em família, mas também pode ser indicado por professores escolares e universitários, por levantar questões de comportamento, estimulando o debate e fomentando o pensamento crítico, cada vez mais caro e raro no meio de tanta desinformação. Assista hoje, na netflix.
E veja o trailer aqui:


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2 Comentários

  1. Acredito que certas temáticas, por mais que já tenham sido abordadas, necessitam ser revisitadas de quando em quando. A questão das redes sociais é uma dessas. acho que é um assunto que, devido à proporção que tomou em nossas vidas, não foi tão bem trabalhado ou abordado quanto nós achamos. É como você disse, questionamos muito as informações que nós damos e o que é feita com ela mas não há tanto material interessante que fale do impacto das redes sociais para além da questão da disseminação de ideias sem embasamento. Com certeza vou conferir esse documentário.

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    1. Exatamente... e esse, neste aspecto, até poderia se aprofundar mais, mas acho que já vale a pena por nos deixar pensando sobre assunto, sobre como nosso comportamento é afetado com o uso... é como eu te falei do pinterest e das ideias e influências sobre estilo de vida. Como seria o nosso gosto sem essa plataforma? Quais seriam nossas influências?

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