O que é dorama, dicas do que assistir e porque entrar neste universo

by - setembro 25, 2020

Quem acompanha o Café, deve estar surpreso ao ver esta postagem. Apesar de minha ênfase na curadoria de filmes, séries e livros ser em cultura de forma ampla, com produções do mundo inteiro, Dorama é, de fato, uma grande novidade. Mas, o que é Dorama mesmo? E por que faz tanto sucesso?

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Seul | Coréia do Sul
Dorama é definido como qualquer produção de drama para a televisão, entendendo este 'drama' como encenação, dramatização. O dorama, não é restrito à Coréia do Sul, mas de toda a região do sudeste asiático - China e Japão também os produzem há bastante tempo. Aqui, vamos focar nas produções coreanas, país que mal conheço e já gosto muito.

O termo 'dorama' deriva da forma de falar do povo, que tem dificuldade com 'drama'. Pode parecer besteira e errado escrevermos assim, mas é como é compreendido e ninguém se ofende. Os doramas são produções de comédia romântica, dramas, suspenses e mistério, que têm foco em desenvolvimento de personagens. Assim, aqueles filmes fantasiosos, de ação e séries de robôs, por exemplo, não entram na classificação, são chamados de tokusatsu (cuja tradução literal é 'efeitos especiais'). Quem já começou a assistir ou assistiu a um dorama, entenderá este ponto. Enquanto a preocupação maior é com os personagens e menos com o desenrolar das tramas, eles tendem a nos passar a impressão de que 'demora a acontecer alguma coisa' - quando, na verdade, é apenas outra forma de contar uma história.

Para assistir a estas produções, é preciso se preparar, os seriados costumam ter episódios longos - Reply 1988 tem alguns episódios de 90min! - e neste clima de 'deixa a vida me levar'. Se você está buscando um filme ou série de consumo 'imediato', é melhor ir a outras paragens. Eu fui apresentada aos doramas por uma grande amiga que é super fã e entendi o porquê. Estas produções - especialmente as de comédia romântica ou romance - têm uma leveza e inocência que se aproximam das comédias românticas americanas dos anos 80 até meados dos anos 90. Ali, parecia que os relacionamentos não eram tão líquidos como Zygmunt Bauman proclamou em seu livro e havia ainda um período de paquera e romance, conquista e então, compromisso. 

Além da leveza das séries, há características que enfatizam as mudanças de hábitos quando entramos neste mundo. As interpretações, muitas vezes, são exageradas, como caretas de surpresa e ênfases de expressão. Há ainda aquelas explosões de gritos e sussurros altos que nos fazem rir e um ou outro momento de fantasia que nos tiram do lugar comum. O mais importante é ter o coração aberto para a diferença e, claro, entender se este tipo de produção é para você. Para mim, foi uma grata surpresa! Trago agora opções de doramas que assisti na Netflix - o streaming tem investido pesado nestas produções - para matar a sua curiosidade e entrar nesse novo mundo!

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Romance is a bonus book (2019)
A história acontece em uma editora de livros e ali, há muitas conversas sobre marketing editorial, lançamentos, ideias, livros e até café. Para mim, os melhores temas e, não suficiente, há uma história de amizade antiga que pode se transformar em romance. Para os corações sensíveis, uma delícia. Romance is a bonus book é uma ótima pedida para entrar nesse universo. Os episódios não são muito longos  - têm em torno de 60 minutos - e, como a maioria dos doramas, se encerram em uma temporada. 

Kang Dan Yi é uma redatora que está apertada de grana e não tem jeito que conseguir trabalho. Ela é separada do marido e sua filha estuda em um internato, de forma que quase não aparece na trama. Para as mulheres que engravidam e param de trabalhar um período, é um inferno retomar a vida - em qualquer parte do mundo, mas a Coréia do Sul, em particular, ainda carrega um imenso atraso social em se tratando de gênero, aceitação e emancipação da mulher. Dan Yi é teimosa e faz de tudo para conseguir um trabalho compatível com suas habilidades, não consegue e, no meio disso, começa a fazer faxina na casa do amigo Cha Eun Ho, se passando por uma diarista. No meio dos apertos e com medo da humilhação, se muda para o sótão da casa daquele e consegue um emprego na editora em que ele trabalha. Os dois passam a ter uma convivência e o resto deixo para a imaginação.

Romance is a bonus book é um dorama leve, tem uns momentos excepcionais de 'distração' e ótima construção de personagens. Um pouquinho de exagero em algumas atuações, característicos do tipo de produção que estamos vendo. Nada que aperte demais o peito, assisti no início do isolamento social e era tudo o que eu precisava naquele momento.

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Reply 1988 (2015)
Essa série é apenas maravilhosa. A gente sabe que boa parte do sucesso de produtos de comunicação e entretenimento se deve a alguns pilares de atração. A nostalgia é um dos mais usados para garantir esse alcance. Reply 1988 é sobre isso. Um grupo de amigos adolescentes na Seul das Olimpíadas de 1988, que vive na mesma rua e partilha das mesmas experiências. Como os meus amigos de adolescência, éramos e somos um grupo sólido que leva a sério essa intimidade, inclusive familiar. Com 16 episódios de aproximadamente 60 minutos - os últimos são enormes, verdade seja dita - a série traz elementos daquela década que nos aproximam da trama: fitas cassete, televisão antiga, maquiagem e penteados e até Carrossel (sim, a professora Helena também aparecia por lá!).

Reply 1988 traz essa vida do dia a dia, como se fosse uma mistura bem feita dos não problemas sérios de Dawson's Creek, com a comédia leve e cotidiana de Chaves. Sung Deok Sun, a mocinha da foto, é a narradora da história em flashback que traz a volta para o contemporâneo logo no finalzinho, como se invertêssemos a ordem narrativa de How I met your mother. Paixões adolescentes, muita comida - em todas as séries coreanas há sempra muita comida com cara boa, é impressionante - escola, melhores amigos, desafios, dificuldades, alegrias e cumplicidade. O dorama vai bem e força um pouco a barra da nostalgia no final, mas até chegar lá e sentir o peso, você já se apaixonou por todos os personagens. De verdade: todos os personagens são muito bons. A netflix ainda comprou Reply 1994 e Reply 1997, com outras tramas (não é uma continuação), mas, não cheguei lá ainda.

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My Mister (2018)
Essa alegria toda da foto não indica a seriedade da trama. Esqueça comédia romântica, romance ou qualquer coisa, aqui a coisa é séria. A gente sabe que ser mulher não é fácil em lugar nenhum, mas na Coréia do Sul, há um agravamento substancial no destrato e descaso. My Mister é um dorama sobre Lee Ji An (a cantora, compositora e atriz, IU), uma jovem mulher com uma dívida familiar nas mãos de agiotas. Seus pais já não estão vivos e ela vive e trabalha em qualquer lugar e da forma que der para pagar e sustentar a avó idosa. Sofrendo pressão do agiota - que conhece desde criança, quando todos eram inocentes e os pais é que tinham problemas - aqui tem violência contra a mulher e uma série de situações de dar muita raiva.

Ao perceber uma possível corrupção que envolve muito dinheiro dentro da empresa em que trabalha como temporária - é pior do que ser estagiário, as pessoas te destratam porque você é quase um dalit - ela pega este envelope de dinheiro e tenta resolver a vida. A grande questão é o homem que recebeu o montante e não sabia o que fazer com ele, é Park Dong Hoon (Sun-kyun Lee, o pai rico do sensacional filme coreano Parasita), honesto até o último fio de cabelo. É nessa trama intricada que os dois vão estabelecer uma relação entre a confiança e o medo.

Brilhante, bem executada, é uma trama equilibrada que dá peso e relevância também aos personagens secundários, como os irmãos de Park Dong Hoon que aparecem na foto. Se não for muito adepto ao romance, invista nesse.

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Porque essa é a minha primeira vida (2017)
A volta para a leveza você encontra aqui. Porque essa é a minha primeira vida é uma história sobre gentileza, cuidado e atenção. Estas são palavras fundamentais em qualquer tipo de relacionamento e aqui, elas seguem juntas com algumas particularidades interessantes. Ji Ho é, novamente, uma das mulheres que se dá mal na vida. Isso será uma constante nas produções coreanas atuais, devido à forte resistência e consciência femininas que vêm surgindo. Sobre esse tópico ainda há muito o que falar e  o retomarei em outro texto, mas o fato é que, até agora, todas as produções que vi, tocam no tema do gênero criticamente.

Ji Ho está sem ter onde morar e procurando uma forma de encontrar trabalho e não voltar para a cidade natal. Solteira, a última coisa que ela procura é um namorado, e enquanto busca um quarto para dividir, encontra um anúncio do apartamento de Se Hee. Por terem nomes que servem aos dois gêneros, os dois se confundem e assinam o contrato antes de se verem. É impensável que um homem e uma mulher dividam moradia sem serem casados. Atentem. 

Se Hee é uma versão melhorada de Sheldon, de The Big Bang theory, muitos sites dirão isso, mas eu acho que é mais profundo. Ele é carismático, metódico e inteligente; ela é um ser humano. Piadas à parte, os dois passam a conviver e decidem se casar para manter as aparências e resolverem os problemas dos dois: Se Hee precisa economizar para quitar o imóvel, Ji Ho precisa morar enquanto trabalha - é uma ótima e sempre explorada roteirista, que quer escrever um livro.  A série é bem gostosa e, mesmo parecendo besta com aquele clima de atuações exageradas, tem uma complexidade interessante nas histórias dos personagens. A própria ideia de se aprimorar nesta vida não esquecendo que virão outras é de uma profundidade que trazem o que pensar e discutir. As questões culturais são muito presentes, a cultura, as comidas mais uma vez, as regiões, as diferenças entre Seul e o interior, da mesma forma que o tratamento, a justiça e igualdade social buscadas. Vale o ingresso.

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Uma mesa típica coreana
Para estas e mais dicas, continue pelo Café, há sempre muito para ver e fazer por aqui. Em breve, trarei mais conteúdos sobre gênero e cinema na Coréia do Sul, foi um tema que ficou presente em mim ao assistir estas e outras séries. Aguarde cenas dos próximos capítulos.

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4 Comentários

  1. I'm in love <3 Amei a postagem (como vc bem sabe que eu iria amar hahaha...), me deu um novo fôlego pra continuar vendo My Mister (que eu tou adorando mas tou sofrendo :P). Já trocamos muitas figurinhas sobe essas produções e você sabe que sempre estarei ao seu lado quando quiser companhia para continuar explorando esse universo do leste asiático.

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    1. Esse texto não seria possível sem você, Leu! Você me trouxe a esse mundo e é claro que seguiremos nele, expandindo horizontes e nos divertindo entre os dramas e comédias dessa terra de comida maravilhosa e costumes a discutir. Vamos sempre juntas! :)

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    2. Sim!!! E em dezembro, se o mundo permitir que eu esteja aí, bem acho que deveríamos marcar um jantar coreano... Bora ver o saber desse rango!!! hahahaha

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    3. Hahahahaha...amei a ideia! Pode vir, já estou botando a mesa! :D

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