Nossos Afetos, Consuelo Cruz

by - agosto 03, 2020

sylvia-szekely

Observo que aqui no Brasil os textos e informações relacionadas às pessoas negras estão ligadas diretamente a uma perspectiva de enternecimento. Essa perspectiva se refere essencialmente à dor. Jamile Borges, professora e pós-doutora em estudos étnicos e africanos, chama de patrimonialização da dor: “No Brasil, ao lidar com a memória da escravidão, há uma tendência a se fazer a musealização da dor, em vez de evocar a resistência” (Folha de S. Paulo, 13/05/2019). Isso dura até hoje. 

Mas, será que a sabedoria dos meus ancestrais foi perdida para sempre no conhecimento padronizado daquilo que nos foi ensinado? Certamente não. Todavia, se pensarmos que a historiografia oficial romantiza os jesuítas no processo colonizador, subestimado e excludente dos povos indígenas; se credita à princesa Isabel o resultado pela abolição, com o 13 de maio contado sob a perspectiva dos vencedores – das oligarquias e classes médias brancas – sendo esses apenas dois fatos citados aqui dentre muitos, fica a dúvida. Isso, sem contar com todo o processo de formação do povo brasileiro, mas não é o foco do presente texto. 

Temos muitas questões sobre o processo colonizatório, que nos colocou em um lugar e a humanidade em outro. Nós, pessoas negras, não fazemos parte dessa humanidade. Fomos colonizados para servir a ela. Fomos cerceados. 

Nossa humanidade é outra. 

Podemos dizer, por outro lado, que a força epistemológica de apagamento da nossa história está no patamar crescente de mudanças, “o papel dos intelectuais, trabalhadoras e trabalhadores, cientistas negras e negros está sendo recuperado.”, como ressalta ainda, a profa. Dra. Jamile Borges. 

É claro que precisamos falar das nossas dores, até porque elas ainda são causadas diariamente. Mas também é preciso resolver, reparar, fazer, mudar, acabar. E essa é a responsabilidade dessa humanidade que nos colonizou. Agora, ela deve se reeducar. Sem isso, não vejo o tão sonhado mundo melhor. 

Imprescindível é falar sobre o significado de nossas vidas, o que nos permite a descolonização, o novo conhecimento, para então vivermos em nossas humanidades. É falar sobre o que nos mantêm vivos. E dizer que sempre resistimos, mas vocês nunca souberam. 

Nossas famílias sempre existiram. Ainda que a formação fosse essencialmente de mulheres em exercício duplo do materno e paterno, sempre mantiveram a solidez nas estruturas, com respeito aos mais velhos e muito, mas muito amor. 

Tivemos infâncias recheadas de peraltices, de amigos e amigas, de viver plenamente o lúdico e o realismo mágico. Temos nossas felicidades. Vivemos paixões exacerbadas, dançamos loucamente até a música não parar de tocar. 

Amamos bons papos e ótimos drinks. Sem falar das cervejas estupidamente geladas. Ah, e amamos comer. A comida nos define e muito. Faz a nossa cultura. Sem falar das nossas espiritualidades que atravessaram oceanos e definiu muita coisa aqui nesse Brasil. E é através delas que o nosso povo permeia os nossos fundamentos. 

Somos muitos e muitas. Acredite nisso. Há quem ainda não sabe que faz parte dessa grande teia de brasis enlaçada pelo continente africano, tão pouco visto, revisto, homenageado, respeitado e estudado por nós. O meu Brasil quer Madagascar, Nigéria, Gana, Benin, Congo, Costa do Marfim, Etiópia. São 54 nações em um só país. Vocês têm noção disso? 

A nossa humanidade permanece em busca daquelas e daqueles que fazem parte de nós. De saber quem somos. E sabemos bem o que queremos. 

“E a luta não acabou, nem acaba aqui. Só quando a liberdade raiar” (Edson Gomes – Lili).


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Quem escreve
Consuelo Cruz é baiana, formada em Letras Vernáculas e apaixonada por literatura. Era o que mais gostava de estudar e pesquisar. Radicada no Rio de Janeiro há 14 anos e a sua área de atuação é o audiovisual.Trabalha na área de conteúdo dos canais Globo. Você a encontra aqui.

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