Livro da Semana: Sargento Getúlio

by - julho 04, 2020

Pensando sobre o livro para esta semana, queria alguma coisa que não fosse muito grande, até para dar uma equilibrada nas dicas e me veio essa ideia - simplesmente um dos melhores livros que li na vida.

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Biblioteca de Stuttgart
Antes de falar sobre Sargento Getúlio, queria explicar essas fotos aparentemente aleatórias. Elas começaram aleatórias mesmo, partindo da ideia de coisas bonitas, livros, algo que contribuísse com uma visão de calma e conforto, que é como nos preparamos para ler. Agora, com as transformações do Café: extraforte, achei justo colocar fotos de bibliotecas incríveis pelo mundo. Assim, atiçamos nossa curiosidade e vontade de viajar para além das páginas que abriremos depois deste post.

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Sargento Getúlio, João Ubaldo Ribeiro
Após esta rápida digressão, voltemos ao livro da semana. O mais engraçado é que eu estava me preparando para fazer 'aquele' texto, quando resolvi buscar no próprio Café, se já havia feito algo sobre esse escritor baiano maravilhoso, João Ubaldo Ribeiro. E aí, a surpresa e a constatação de que, de 2014 para cá, minha percepção não mudou, mesmo tendo lido muita coisa depois dele. Segue o primeiro parágrafo:

Eu já estava pronta pra dizer que esse é o melhor livro que li esse ano. O melhor de muito tempo, na verdade. E é mesmo... mas eu li outros muito bons em que não escrevi nada (o de Ingmar Bergman, Lanterna Mágica é impressionante, por exemplo... assim como Macbeth, assustador) que agora fiquei tímida de considerar esse tanta coisa assim e esquecer dos outros. Mas o fato é que esse é um dos melhores em muito tempo e que me surpreendeu. Não sou crítica de livros, mas acho que todo mundo deveria, pelo menos saber que existe uma coisa dessas no mundo.

João Ubaldo Ribeiro morreu naquele 2014, ano em que outro homem imenso e tão fantástico escritor como ele também nos deixava, Gabriel García Márquez e seus Cem anos de Solidão. Um sofrimento sem fim para a literatura latino americana, um consolo saber que encontramos facilmente os livros dos dois - imortalizados em suas palavras, eternizados em nossos corações. Pronto, chega. É que quem conhece um pouquinho o trabalho destes dois homens, entende a perda e quem não conhece, é uma ótima oportunidade para fazer isso. 

Seguindo com meu post apaixonado, entrego um deleite de admiração, regionalismo e orgulho, entre as qualidades e defeitos deste ufanismo repentino e localizado no coração do país, meu Nordeste, minha vida: 

Sargento Getúlio é um homem desses rudes, brabos, cabra macho mesmo de sertão. Ele precisa levar um preso de Paulo Afonso, na Bahia, para Aracaju, em Sergipe e isso é uma viagem bem longa, ainda mais se considerarmos que ele vai por terra. Então, nosso homem segue falando tudo o que lhe acontece, nos pormenores, explica toda a sua situação sempre no presente e vamos participando do seu dia a dia em uma fala sem fim, quase sem parágrafos, quase sem parar. E não conseguimos parar de ler também. E se odiamos esse homem por algumas ações que pratica e o achamos mais ruim que o demônio, em outras, ele é um ser humano, um homem-coração. Porque o nordestino é isso mesmo, é macho até onde pode, com ou sem machismo. É macho no sentido da coragem, de meter as caras e fazer valer. É macho de enfrentar a vida, nem que precise de um facão (ou peixeira, se preferir) do lado. É macho até pra amar, que vai lá no fundo da coisa e se entrega todo, nem que se rasgue todo de dor depois. E se somos brutos é porque somos brutos, não porque somos ruins ou ‘maleducados’. Somos brutos porque não somos finos, somos sinceros e diretos e imperativos, mas cuidamos e protegemos de quem gostamos como se fossem uma parte de nós, um membro de nosso corpo ou até mais que isso. (clique aqui para ler o post completo)

Sargento Getúlio, com todas essas qualidades, esse entranhar de nordeste na pele a cada virada de página, é curto demais (176 páginas!) para o encantamento que provoca. É uma escolha maravilhosa, imprescindível e fundamental para conhecer um pouco mais a literatura brilhante do nosso país. 

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