Expiração, Fernanda Rubim

by - julho 13, 2020

A expiração continua restrita. Repetiu ele o conselho do dia anterior. Apesar de saber quão bem intencionadas eram aquelas palavras, elas atormentaram o restante da sua prática naquela manhã. Inspecionou a causa do incômodo. Seria decorrência da sua dificuldade em se esvaziar, desocupar, descarregar? Ou do medo de se sujeitar, submeter, subordinar? Teria ele relação com liberação, emancipação, autossuficiência?

yoga-respiração

Contemplou a primeira narrativa recordando em filme acelerado seu passado atarefado, reconhecendo o padrão de atribular-se de afazeres para trancafiar sentimentos desagradáveis que insistiam em aflorar. Afastava-se assim da sua sombra, mas também de sua luz, postergando a aproximação de sua essência, algo que muito almejava mas, ao mesmo, tempo duvidava. Se por um lado, acreditava que uma bem-construída identidade facilitaria sua existência, por outro, desconfiava da viabilidade da empreitada visto que a mudança é a única constante da vida.

Impaciente, em vez de costurar linhas entre os pontos em aberto, abandonou com certa frustração o projeto inacabado movendo-se para a segunda narrativa. Indagou-se sobre o possível erro de analisar a relação com o outro sem antes compreender a relação consigo mesma. 

Notou a poderosa retroalimentação entre as narrativas. Ao se desconhecer, movia por vezes inconsciente conforme soprava o vento: família, amigos, coletividade. Meditou sobre as vezes que culpou o outro de egoísta, eximindo-se da responsabilidade de estabelecer limites. Confronto nunca fora seu forte. Na verdade, era seu calcanhar de Aquiles.

Teceu o link com a terceira narrativa. Competitiva por natureza, receava perder. Dado esse temor, sujeitava-se, submetia-se, subordinava-se. Refletiu um pouco mais e observou que ganhar poderia ser ainda mais assustador. E se o prêmio não fosse do seu agrado? Valeria a pena despender força e energia destruindo, desorganizando, anarquizando se, no final do dia, o reconhecimento de que o gasto não passou de uma mera troca de amarras, narrativas, ilusão de liberação, emancipação?

Notou o oportuno zig-zag de sua mente de advogada inclinada a questionar em vez de solucionar. Com determinação, buscou novos ângulos para encaixar as peças do lado de fora do quebra-cabeça. Notou na inalação o poder de se preencher, liderar e expandir por meio de relações interdependentes. Verificou que, quanto maior a prática dessas qualidades, menos assustadoras eram o esvaziamento, a sujeição e a independência derivados da expiração. Acatou, por hora, o equilíbrio entre as fases da respiração como chave para uma expiração menos limitada.

***
Quem escreve
Sou Fernanda Rubim, apaixonada por pessoas, por aprender coisas novas e ganhar diferentes perspectivas sobre a vida. Sou brasileira, soteropolitana e comecei minha carreira como jornalista, passando logo para o direito. Trabalho com finanças em uma multinacional por dez anos na Europa, enquanto ensino Yoga e escrevo artigos sobre os assuntos que me interessam. Você me encontra aqui.

Posts Relacionados

2 comentários

  1. Adorei a auto-reflexão e desse retrato tão íntimo (mas, ao mesmo tempo tão plural e fácil de reconhecer em nós mesmos) de como é nossa mente, andando em círculos, quando tentamos nos auto entender. Esvaziar a mente na medição ou na hora de dormir é sempre um drama, meu que esquecer da gente pra poder estar no presente.

    ResponderExcluir
  2. Eu super me identifiquei com esse texto.. nossa!
    Tenho trabalhado muito essa questão da desresponsabilização \ dificuldade de estabelecer limites...
    Texto muito potente.🌷💓

    ResponderExcluir

//]]>