Do lado de cá: Mudanças

by - julho 08, 2020

Vou confessar a vocês: a essa altura, achei que já estaria recebendo os móveis todos aqui em casa. Mas, como tudo na vida, não adianta se planejar tão meticulosamente quando há um mundo de imprevistos e relações sociais necessárias aos trâmites de qualquer processo. Quando se trata de mudança então, nem se fala. 

copacabana-apartamento
home office carioca
Cheguei ao Rio no dia seis em março de 2008 e só sei disso porque foi dois dias depois do meu aniversário. Eu era uma jovem de 25 anos e fui estudar Cinema Documentário na FGV. Minha primeira mudança foi para um apartamento mobiliado de uma amiga de uma conhecida, Ju, que virou amiga de verdade pouco tempo depois naquele mesmo ano. Ela precisou ir a Pernambuco por três meses e ocupei seu apartamento neste período. Nos conhecemos quando ela retornou e a compatibilidade nordestina bateu forte.

De lá para cá foram oito mudanças em doze anos. Apartamentos por temporada, quarto-e-sala, dois quartos e quarto-e-sala novamente. Contratos de trinta meses, seis meses, três meses, doze meses. Aluguel com fiador, sem fiador, com fiador baiano, com depósito e título de capitalização. Me transformei em uma especialista no processo, da vistoria de entrada à entrega das chaves. E agora, uma novidade em uma categoria nunca explorada: a mudança interestadual.

Mari, minha amiga irmã baiana que segue no Rio já havia feito uma mudança intermunicipal e vivemos isso juntas quando ela veio morar comigo. Eu, entretanto, além da mudança Salvador - Rio de Janeiro com roupas, livros e sapatos, não havia saído de Copacabana. E agora, como um ciclo mítico de renovação, transformação e pandemia, volto a Salvador - literalmente - de mala e cuia. A diferença é que, com a urgência da quarentena, trouxe uma mala pequena e a cuia e todo o resto viriam depois. O que deveria ter acontecido no último sábado.

plantas
do alto das prateleiras sobra saudade
Como nem tudo são flores, meus futuros ex-vizinhos não autorizaram a mudança na data prevista. Como se isso mudasse a vida deles. Ocuparia o elevador de serviço por um par de horas - não tenho muita coisa - e me adiantaria uma semana. Mas tudo bem, não dá para brigar com os donos do bairro - a terceira idade que reina nas estatísticas em todo o país, se concentra no bairro e com toda a certeza, no meu prédio. A mudança foi adiada e acontecerá amanhã - oremos. Mari, mais uma vez me salvará, acompanhando os homens da mudança, que embalarão e colocarão tudo no caminhão e então saberei quando as coisas chegarão. Depois é pintura - já agendada - vistoria e entrega das chaves. Um tchau para o Rio de Janeiro à distância, deixando muito carinho, saudades e amigos que carrego no peito e para sempre.

Do lado de cá a vida segue, tentando manter a sanidade depois de mais de cem dias de isolamento social e ansiedade por ancorar de vez (e por enquanto) na cidade, tornando o espaço habitável personalizado com a chegada das coisas que seguem viagem. Alterno entre o apartamento e a casa dos meus pais, vivemos de convivências restritas e quase os mesmos assuntos, com a sorte e o privilégio reconhecidos de ter um jardim e quintal para cuidar. Acompanhamos a duração dos dias no tempo das plantas, no ritmo solar e lunar da Natureza com letra maiúscula.

Os projetos do Café seguem criativos, às vezes árduos, mas costumeiramente felizes, a ocupação com o que se ama, os assuntos que nos movem, a criatividade em forma de texto e alternadamente, vídeo no instagram me divertem e são um desafio à minha timidez e reservas habituais. O que virá com isso, ainda saberemos, há horizontes possíveis. 

Brindo à suposta nova vida, ao novo normal e ao Rio de Janeiro que me acolheu, me fez crescer e me tornar quem eu sou, seja lá o que isso signifique. Deixo aqui o texto da minha chegada lá, para que se reecontre com esse, de despedida, aconchego e saudade.

Mês que vem eu volto com as novas histórias do lado de cá. E você, muitas mudanças na sua vida neste ano desafiador?

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4 Comentários

  1. Tenho certeza que o novo 'livro' de sua vida será ainda mais delicioso que o anterior.

    Esse mundo é muito louco (e parece que está numa fase estranha de auto-afirmação que precisa mostrar para todos os seres humanos que é do tipo 'não mexa comigo porque você não sabe do que eu sou capaz') e essas as mudanças que chegam de forma involuntária mudam nossas perspectivas e formas de ver a nossa vida (também não sei o quão bom isso é, mas né, deve dar aquele amadurecimento... uns pontos aí para a próxima vida, eu espero/pleiteio para as divindades hahahaha).

    A mulher independente agora mudou de casa, teremos nova flora, novos sons e cheiros, novos horizontes, novos textos. E, com sorte, vizinhos melhores também <3

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    1. Ah, que linda! Vamos nessa e sigo aguardando as suas aventuras do outro lado do oceano <3

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