Artista de Cinema: Céline Sciamma

by - julho 07, 2020

Com poucos e imensos filmes na carreira, Céline Sciamma é hoje o grande nome da arte na França. De tudo o que eu vi da autora, gosto de tudo - assim mesmo, radical e redundantemente. Não é à toa e vou me justificar, que elegi a moça, a Artista de Cinema deste nosso julho de isolamento social (importante marcar a duração deste período). Vamos?

sciamma-biografia
Céline Sciamma
Quando assisti Girlhood (2014), já conhecia Céline Sciamma por Tomboy (2011), um filme lindo e único sobre uma garota que se veste de garoto. O que eu não havia atentado até hoje - sim, esse texto é bem fresco -  é que em Girlhood, temos uma diretora e roteirista branca falando sobre a adolescência de meninas negras na França. Sem tecer qualquer julgamento acerca do que que acabei de soltar, imagino que ela deve ter ouvido algumas sobre a temática e o lugar de fala. Ao mesmo tempo, o filme é tão sensível e delicado, que - a meu ver - não toca na questão de fala como apropriação, mas sobre a história de um grupo de meninas vivendo a adolescência. Independentemente de qualquer coisa, Sciamma tem muito a dizer e é por isso que hoje é uma das diretoras mais importantes que temos e nossa Artista de Cinema de julho.

Nascida em uma cidade próxima a Paris, Céline Sciamma estudou literatura e depois enveredou para o cinema, se graduando na respeitada La Fémis, em 2005. De lá pra cá, estreou já com um longa metragem, Lírios d'água (2007), com Adéle Haenel, sua parceira de vida por muito tempo e em muitos projetos. Desde sempre, o foco da diretora e roteirista sempre foi ter a mulher como protagonista e tema em suas produções. O tratamento de gênero, maturidade e comportamento são os motes para construir imagens de mulheres reais, em situações possíveis em que não reafirmam um olhar masculino de segundo plano e objetificação. Essa reconstrução da percepção feminina é a marca de seu cinema e nosso imenso ganho em tê-la produzindo. Dá para ter um gostinho da produção dela no curta Pauline (2010), parte de uma série de filmes contra a homofobia, legendado em inglês e grátis no Youtube.

Sciamma se tornou ainda mais célebre ano passado por força de duas situações que se comunicam: o lançamento de Retrato de uma mulher em chamas, certamente um dos melhores filmes de muitos anos (para não ficar apenas em 2019) e sua recusa em aceitar ver Roman Polanski recebendo o César de melhor diretor e roteiro por O Oficial e o Espião (2019). Ela, Adéle Haenel e muitas outras atrizes deixaram o evento. Segundo a diretora, há duas questões aí: é preciso que a França acorde para parar de premiar pessoas com o histórico criminoso do diretor e, por outro lado, encarar a percepção de que no país, como em tantos outros, ainda há uma noção tardia e cruel de aceitação e celebração destas figuras. O que ela pode fazer com relação a isso é seguir produzindo obras contundentes, críticas e renascedoras com espírito e força feministas.

Batalhei para escolher Sciamma como a Artista de Cinema, apenas porque seus filmes não estão nos streamings de maior acesso, mas, ainda assim, dá para encontrá-los facilmente. Artistas como ela são imprescindíveis na trajetória da arte em si, como também para o incremento do nosso acervo cultural e intelectual enquanto indivíduos. Retrato de uma jovem em chamas foi seu filme de maior alcance até hoje e ainda consigo sentir na pele as emoções quando o assisti no cinema. É uma obra sensível, brutalmente inteligente e delicada, que em pouco menos de duas horas, traz um panorama histórico de gênero, comportamento, tradição e cultura de séculos passados e que persiste ainda hoje, de alguma maneira. Ao mesmo tempo, é uma história de amor entre duas mulheres, cuja paixão inicial vai se transformando e até sua manifestação. A forma como o tema do amor é abordado é transformadora e revolucionária. Especialmente se tratando de um romance entre mulheres - indo na contramão do que a indústria cultural e de massa costuma exibir com o tema, como Azul é a cor mais quente (2013), por exemplo.

Céline é mestra em seu trabalho e sua vida e obra se entrelaçam, trazendo suas questões para a nossa discussão, com sensibilidade e reflexão. Na próxima semana, nossa Artista de Cinema volta com uma breve análise sobre seus filmes e a importância deles em nossas vidas. Te espero aqui.  

*Para conhecer nossos outros Artistas de Cinema, clica aqui, em maio e junho.

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