A colina, a montanha e a ciência, Fábio Freitas

by - julho 06, 2020

A ciência se acostumou a se apresentar como o progresso desde, pelo menos, a Revolução Científica. Quase sempre esse binômio, ciência e progresso, se apresenta junto, seja na forma de inovações tecnológicas, seja nas suas implicações para a nossa visão de mundo. Um dia soubemos que o Sol girava em torno da Terra e o homem era o centro de tudo. No outro, a Terra era um planeta como outro qualquer e o homem estava solto pelo universo totalmente insignificante. No século XVIII, morriam 400 mil pessoas por ano de varíola, uma doença que já não existe mais no nosso planeta desde os anos 80. 

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Se a ciência moderniza, ela também traz conflitos com o tradicional. Enquanto a ciência tem seu carimbo positivo que aprova e classifica, ela é incapaz de entender como funcionam os valores locais ou como seus critérios objetivos podem não dar conta de um sentimento.

Em uma história mais ou menos verdadeira, a pequena vila galesa de Ffynnon Garw possuía como seu maior orgulho a sua montanha, Garth. Seu papel histórico de garantir segurança contra invasores e, além disso, de ser a primeira montanha do país, a tornavam parte integrante da identidade da vila. Ao mesmo tempo, a relação do País de Gales com a Inglaterra nunca havia sido a coisa mais tranquila da humanidade. Em uma disputa de centenas de anos, a Inglaterra invadiu diversas vezes aquele país, até que no século XVI, ele passou a fazer parte do Reino Unido. 

Assim, tudo começa durante os esforços da Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918). Em nome da Rainha, dois engenheiros se dirigem à vila para medir o tamanho do acidente geográfico para constar no mapa atualizado. Com o critério de que uma montanha deve ter, pelo menos, 1000 pés (304,8 metros), os ingleses fazem uma primeira medida e decretam o resultado. Por 20 pés (6 metros), o que era a montanha Garth passa a ser uma colina. Não correndo o risco de estragar o final do filme já que o título conta essa parte, seus moradores se juntam e conseguem cobrir a altura que faltava para que a montanha pudesse existir oficialmente.
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O inglês que subiu a colina e desceu a montanha (1995)
A ciência possui, como já dito, seus critérios objetivos, mas tais critérios podem ser tão objetivos quanto arbitrários. Se pode parecer folclórica a revolta da população local de uma vila por algo que pode nos parecer uma bobagem, não nos esqueçamos que há poucos anos cientistas se digladiaram em torno da decisão de reclassificar Plutão como um planeta anão. Se tivessem como, levariam caminhões de terra até o planeta para corrigir o que eles consideram uma injustiça. Ainda hoje o tema é debatido e há quem mantenha a esperança. 

Se os próprios cientistas podem tentar barrar suas novas decisões por motivos, nesse caso, sentimentais, como reclamar da racionalidade da pequena vila galesa? Tal qual a religião, a ciência aprendeu que a melhor forma de se desenvolver é estar unida ao poder. A ciência depende do Estado e, muitas vezes, a força do Estado é a única capaz de fazer a ciência avançar. Da mesma maneira, em diversas situações em que a ciência é atacada, é a força do Estado se apresentando. A Revolta da Vacina é um grande exemplo. Ainda que se conte esta história como sendo pessoas ignorantes não entendendo como certas políticas vinham em seu benefício, o episódio é mais bem compreendido quando entendemos como o Estado avançou sobre a vida privada das pessoas sem explicar o motivo por trás disso. 

Neste O inglês que subiu a colina e desceu a montanha, do diretor galês Christopher Monger, a resistência galesa à mudança está intrinsecamente associada ao fato de serem os ingleses a desenvolverem tal medida. A força da Rainha, sem explicar seus motivos, estava ali para medir o principal motivo de orgulho da vila. Como é possível medir algo assim? O que era, então, um sentimento de uma pequena população, torna-se um comportamento universalizado e razoável. É verdade que a batalha da vila contra o sistema foi travada de uma forma bastante peculiar e através das regras da própria ciência e progresso que levantaram a questão. Por causa disso, a colina se manteve como montanha, sustentando o orgulho de um povo. Uma história inusitada que questiona os valores da ciência, estado e comunidade, mostrando que, isolados, estes conceitos de nada nos servem. E, como se não bastasse, ainda é um bom filme com o Hugh Grant bacana dos anos 90.

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Quem escreve
Fábio Freitas gosta de cinema e ciência. É físico e professor do Instituto de Física na Universidade Federal da Bahia. 

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1 Comentários

  1. Preciso falar que só de haver a palavra digladiaram escrita corretamente eu já amei. Quando escrevi meu primeiro texto na pós, a professora e um aluno me “corrigiram”.
    Maravilhoso texto. “seus critérios objetivos podem não dar conta de um sentimento.”💓

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