Livro da Semana: Prólogo, Ato, Epílogo

by - junho 30, 2020

Chegamos na última semana do mês e para encerrar com chave de ouro os assuntos sobre nosso #artistadecinema de junho, vamos com uma coisa muito especial. Chega mais!
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Como já sabemos, Artista de Cinema é nossa postagem semanal sobre uma personalidade importante para a sétima arte no mundo. Suas contribuições são relevantes não apenas para o fomento cultural, como servem de referência para futuras gerações. Em Junho, nossa convidada especial foi ninguém menos do que Fernanda Montenegro, esta entidade da nossa cultura brasileira. Hoje, para encerrar o mês, fechamos com sua autobiografia lançada ano passado, Prólogo, Ato e Epílogo

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Prólogo, ato, epílogo, Fernanda Montenegro
Elaborado a partir de uma série de conversas e entrevistas com a colaboração de Marta Góes, Fernanda Montenegro constrói um linha de tempo sobre sua vida, que nos permite partir do que ela considera o princípio - a chegada de seus antepassados, imigrantes italianos e portugueses no Brasil. Esta seleção não é arbitrária, nossa artista de cinema parece querer marcar sua origem como aquela ao país que pertence e do qual nunca quis se afastar - o Brasil como residência e herança.

Assim seguem suas memórias de quase cem anos, sempre entrelaçadas com nossa história política e cultural - o início de sua formação de rádio e teatro, o posterior ingresso na tv, os filmes com os grandes nomes do nosso cinema. Fernanda Montenegro é em si um patrimônio e talvez o maior nome de nossa dramaturgia contemporânea - alegria e honra de qualquer diretor e produtor cultural trabalhar com ela.

O livro cruza momentos difíceis de nossa História por quem os viveu muito de perto, produzindo cultura: os anos de chumbo da ditadura militar. Fernanda Montenegro viu seus amigos serem presos, torturados, desaparecidos. Viu as peças de teatro serem escandalosamente censuradas parcial e integralmente e resistiu, esperou por dias melhores enquanto driblava a dor de perder a arte livre e o medo de um cotidiano sombrio. Ao mesmo tempo, acompanhamos o dia a dia íntimo, a família, os filhos crescendo, os pais se envolvendo na educação e apoio aos artistas. 

Percebo e celebro as transformações daqueles anos como um desmonte necessário diante de um comportamento tragicamente cerceador. Ainda que, às vezes, à custa de desbundes totais, de seres humanos que 'foram' e nunca mais voltaram. E daí? Só não aceito a 'obrigação'. O radicalismo de qualquer ideologia leva ao crime - parodiando Ionesco. Nos extremos há sempre uma assassina vivência fascista. Não cheguei ao desbunde. Mas fui até onde entendi e senti. 

A narrativa é gostosa, é uma honra poder participar da vida dessa artista de cinema, teatro, televisão e rádio - todas as mídias de propagação cultural da ficção. Até na poesia e na ficção literária, já que Fernanda Montenegro também recitou não sei quantos textos. Esse furor pela produção cultural é força própria de sua natureza e o que a torna tão importante para nós, não apenas como talento, mas como voz ativa na luta política por uma arte para o povo, pela promoção da nossa cultura nacional ou da própria cultura mundial em nosso país. É um privilégio e delícia poder ler nas suas palavras, um pouco de sua história. Este livro é uma aula de vida, arte, cultura e Brasil. 

Sobrevivemos pela força da vida mesma. A esperança precisa deixar de ser só  votiva. A esperança tem que ser uma nação viva. Foi isso que os meus imigrantes me ensinaram. Fé numa nova terra.

Encerramos com Fernanda Montenegro, nossa artista de cinema, o mês de junho. Uma alegria conhecer mais sobre essa personalidade, ver a história de sua vida tão amarrada com a de nosso país - me lembrou minha avó, cujo livro de memórias vai sair, passados os seus mais de noventa anos de vida. Enquanto edito o dela, tem aqui o de Fernanda - vale e muito, a leitura.

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