Livro da Semana: O amor é fogo

by - junho 06, 2020

Enquanto o mundo demora a criar novos eixos - entrar nos antigos não é uma possibilidade - sigamos tentando manter a cabeça no lugar, a voz das revoltas e revoluções ativas, o pensamento crítico vibrante. Aguardemos um pouco mais em casa e aproveitemos as dicas de filmes e séries da Amazon Prime e Netflix no Café, bem como os Livros da Semana - todo sábado, por aqui.


Semanas atrás, a televisão queimou. No meio da quarentena mesmo, o sal do mar não perdoa. É uma coisa que precisamos aceitar na cidade e sem reclamar muito; a escolha de permanecer é nossa e com isso vem a natureza junto. O fato é que ela queimou pela maresia ou salitre, que são a mesma coisa, apesar de terem definições diferentes em cada lugar. Há muito tempo sem comprar nada e guardando grana por motivos óbvios, reconheci que não dá para viver com a cara no computador mais do que já vivo. Aceitei o destino e comprei online e parcelado um aparelho novo. Junto a ele, cinco livros de histórias e motivos completamente distintos entre si, uma prática de anos, coisa que não se muda e só ajuda a confundir nossos quereres, ao mesmo tempo que traz um caleidoscópio cultural pra dentro de nós. Para que se perceba a aleatoriedade que explicarei um dia, a lista foi assim: Noites Brancas, Dostoiévski, O médico e o monstro - o estranho caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, que já foi livro da semana aqui, O Amor é Fogo, de Nora Ephron, Meninos de Zinco, de Svetlana Aleksiévitch e Conversas com Escritores, de Ramona Koval. Como não está fácil para ninguém - mesmo estando infinitamente mais fácil para uns do que para outros - é preciso cultura para se manter razoavelmente sensato em uma pandemia e isolamento de mais de 70 dias. Vamos ao livro deste sábado.

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O amor é fogo, Nora Ephron
Sim, parece mesmo um livro de mulher. Aliás, é um livro de mulher de fato, é escrito por uma mulher, então me parece meio óbvio. Nora Ephron é a roteirista de Harry e Sally (1999, de Rob Reiner), apenas a melhor comédia romântica de todos os tempos, com o improvável casal Meg Ryan e Billy Cristal. Além de roteirista, escritora e produtora, Nora foi também diretora de filmes muito legais, que marcaram a vida de muita gente, como Sintonia de Amor (1993), Mensagem para você (1998) e Julie & Julia (2009). Heartburn é o título original do livro que ganhou essa estranha tradução e a capa absolutamente ridícula. 

A história é contada por Rachel uma escritora de livros que mesclam anedotas pessoais e familiares com receitas culinárias, o que parece ter dado muito certo. Casada com o segundo marido, um jornalista 'de assuntos sérios' e grávida de sete meses do segundo filho, ela descobre que ele está tendo um caso extraconjugal e a crise estoura. O que parece uma trama simples e quase besta, ganha outras proporções quando sabemos que muito o que está escrito ali, de fato aconteceu com a escritora da vida-real, como ela conta na introdução. Isso traz um peso interessante à trama, talvez por nos apegarmos a estas histórias de verdade e a levarmos mais a sério do que se fosse um romance. O livro é muito fácil de ler, tem ótimas tiradas e talvez faça alguma diferença lê-lo em inglês, mas a tradução não deixa a desejar. Uma coisa ótima de ler livros de quem escreve filmes, é que há sempre construções cenas, se torna muito fácil para nós criar os personagens, desenvolver seus perfis e tramas entre as situações ali descritas. Sem falar no ritmo, claro. Quem conhece os filmes da autora, sabe que diálogos e ritmo são características marcantes.

A graça deste livro de mulher com a ridícula capa (que, claro, está satirizando as donas de casa e as imagens estereotipadas da mulher, todo mundo entendeu, mas ainda assim, a Editora Rocco poderia ter  buscado uma crítica um pouco mais atualizada do que os tristes anos 50) está em suas entrelinhas. Em perceber como uma vida pode se transformar tão repentinamente, como tendemos a depositar em nós as culpas por tudo o que não fizemos, como sempre e ainda recai na mulher qualquer queixa e como é fácil ainda acabarem com a nossa imagem. Ao mesmo tempo, há uma sinceridade e leveza no texto, em meio à dor e ao caos. Nora é escritora de comédias românticas, as melhores americanas, e ela traz isso para o livro. Não apenas como uma comédia de costumes, mas como comportamento, com uma sinceridade em descrever pensamentos e ideias esdrúxulas em situações complicadas. Acontece a todas as pessoas, a gente só não comenta (ou comenta com os melhores amigos). O livro virou filme - e que filme - A Difícil Arte de Amar, com Meryl Streep e Jack Nicholson, cujo roteiro é de nossa autora e que vale muito a pena assistir. Um ótimo programa para a semana é essa dupla filme e livro - tendo conhecido os dois, recomendá-los é quase uma obrigação.

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