Livro da Semana: Noites brancas

by - junho 20, 2020

É preciso que nos alimentemos neste isolamento agora já bastante longo. Das comidas que garantem a nossa saúde à nutrição da mente e espírito, em seu sentido mais elevado, é preciso cultura, também em seu sentido mais elevado. Hoje é o dia para isso.

livro-da-semana

Nestes tempos de isolamento, um monte de desafios se impõe sobre nós. Das coisas do pequeno cotidiano, quantas vezes limpar a casa e de que forma - isso para quem pode ficar no isolamento doméstico - a cozinha, lavar roupas... passar? Da mesma maneira, com nossas emoções. O clichê "mente vazia, morada do diabo" ganha tantas nuances, que é até difícil saber se nosso humor se manterá mais ou menos o mesmo ao longo do dia. Assim, acontece com os livros. Nossas escolhas literárias refletem nosso estado de espírito: podemos estar ávidos por entrar em uma história que seja a maior possível, que nos prenda a atenção e faça as horas voarem. Ou, quando não conseguimos nos concentrar por muito tempo, a mente vagueia e talvez algo curtinho e bem escrito nos dê aquele impulso que precisamos para atravessar um momento. Para tudo isso, estou por aqui e a dica de hoje é de um gênio, Dostoiévski.

Dostoiévski consegue tudo, sempre. De histórias imensas como Crime e Castigo e Irmãos Karamázov aos muitos romances bem menores, como Machado de Assis, ele mantém nossa atenção, não importando o volume. Sempre há fôlego. É um desses autores em que provavelmente tudo é bom (porque ainda não li tudo, não sei dizer) ou chega perto disso. Todas as suas histórias trazem um ganho para nós, uma reflexão sobre um tempo tão distante quando o endereço de suas narrativas, mas que nos aproximam, por se tratarem sempre de humanidade.

noites-brancas
Noites brancas, Fiódor Dostoiévski
Noites brancas é uma novela super curta, de pouco mais de 70 páginas, sobre um homem apaixonado por São Petersburgo. É um romântico clássico, um flâneur como aqueles que circulavam pela Paris daquele mesmo século, que sonha as geografias urbanas por onde passeia e cujos amores superam a própria vida. O título remete ao verão russo, quando a cidade não escurece totalmente à noite e fica uma espécie de penumbra, um ar de fantasia que cobre os espaços e confunde as horas.

Nosso sonhador é essa figura que justamente vive o verão em uma cidade quase vazia; seus moradores partem para outras paragens com mares e campos menos abafados para a temporada e ele fica lá, entre a tentativa de partir e o desejo de permanecer. Seu encantamento é tamanho, que ele sabe que perderá um pouco de cada coisa com qualquer decisão. Fica, portanto, circula pelas avenidas como um apaixonado, alienado a seus defeitos - a alienação é um fator importante na Rússia de meados do Século XIX de Nicolau I - até que se encanta por uma primeira paixão humana, uma mulher que lhe atordoará os sentidos durante quatro dias e noites.

Nunca havia lido nada tão romântico-melodramático em Dostoiévski e a experiência foi interessante. Há uma versatilidade imensa no escritor, para além de sua crítica social mais aberta de outros textos. Aqui, o tom político corre em paralelo e ao olhar mais atento, de forma que se o desejo do leitor for apenas enveredar pelo romance, é uma oferta válida. As ilusões, os encantamentos e decepções estão todos aí. Ao mesmo tempo, o caminho por uma cidade esvaziada, a tentativa de fuga e o desejo de permanência, o que isso significava em um período de forte repressão política.

Nesta edição linda da Penguin Companhia há um conto anexado, Polzunkov, sobre uma figura em um evento social que se impõe como a definição do seu nome, a partir do verbo polzti, rastejar e ao substantivo polzunok, bebê que engatinha. Uma história de observação de personagem, aquele que se faz útil aos gracejos e escárnio da sociedade para que, então, consiga fazer parte dela. Por fim, uma das melhores opções para quem busca uma leitura brilhante, de fácil digestão e ainda assim, um clássico de um dos maiores nomes da literatura mundial.

Posts Relacionados

0 comentários

//]]>