Livro da Semana: Meninos de Zinco

by - junho 13, 2020

O livro da semana vem forte, pesado e político. A invasão imperialista ao Afeganistão pela União Soviética em 1979 é relatada por quem esteve lá, através de entrevistas com Svetlana Aleksiévitch, a escritora Prêmio Nobel de Literatura, conhecida por Vozes de Tchernóbil, o livro que serviu de base para a série da HBO Chernobyl. Hoje vamos a Meninos de Zinco.

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The old library, Trinity College. Dublin, Irlanda.

Ninguém saberia que aquela guerra duraria dez longos anos e que, ao seu fim, traria mais transtornos aos combatentes que foram lutar como heróis e voltaram assassinos. Lançado ano passado pela Companhia das Letras, Meninos de Zinco, de Svetlana Aleksiévitch traz uma definição complexa de humanidade e história.

Como seus outros livros - Vozes de Tchernóbil, O fim do homem soviético, A Guerra não tem rosto de mulher e As últimas testemunhas - este também é composto de relatos dos sobreviventes e familiares de algumas das muitas vítimas do lado soviético. Neste conjunto, a autora traz um panorama social profundo das diversas percepções, das ilusões partidas de quem foi por um ideal e viveu um inferno; das famílias que vivem a culpa de terem concordado com isso e perdido duplamente, na transição de mentalidade com a proximidade do fim do regime e, por fim, de terem embarcado com pompa e retornarem com a derrota social, além dos traumas dos conflitos. Como uma imensa nação saindo da Guerra Fria, a URSS precisava conquistar seu espaço e então passamos a conhecer o que pouco foi notícia por aqui, a invasão que antecedeu a chegada dos Estados Unidos no país de Osama Bin Laden.

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Meninos de Zinco, Svetlana Aleksiévitch
Svetlana é Prêmio Nobel de Literatura e as razões para isso se justificam quando acompanhamos sua trajetória literária. Com os livros que chegaram a nós - todos pela Companhia das Letras - recebemos um volume imenso de informação sensível sobre uma nação que foi composta por tantas outras e depois se fragmentou novamente, que tem uma história digna de todos e mais filmes feitos e que, por aqui - ao menos no meu ensino médio - vimos muito pouco a seu respeito. Ainda que eu espere que se fale mais sobre outras nações que não as tradicionais do meu defasado currículo escolar, nenhum livro didático vai trazer os pormenores, as vozes dos indivíduos, seus pensamentos e subjetividades como estes que conseguimos acompanhar com a autora. 

Todos somos imbuídos de nossos ideais e a autora não se imiscui dos seus, mas ela tenta, ao mesmo tempo, dar voz às mais diferentes mentes e frentes. Então, temos desde o jovem que não queria ir e foi empurrado pela família e viveu um inferno particular e coletivo, a outro que foi pela bandeira e orgulho e se sente vencedor. Temos as famílias desalojadas em suas dores imperdoáveis e perdoáveis, temos quem sustente e quem pise nas políticas assassinas das disputas de poder. É um livro que traz tudo, que abre mil debates e que ainda traz um adendo, com os pormenores do julgamento a que a escritora foi submetida, por ter sido processada por algumas das pessoas entrevistadas. Inesperado, mas compreensível - especialmente em uma nação que tinha por prática cultivar o medo e manter uma imagem de vencedora sempre. Era outra época, outros valores - mas ainda há muita ressonância com tudo o que vivemos. Guerras, ideais nacionalistas e grandes ilusões sempre haverão, o que torna esse livro imprescindível para refletirmos sobre poderes e perdas, política e crimes contra a humanidade. 

Meninos de Zinco é doído - o título fala dos caixões e como muitos combatentes eram meninos efetivamente - dezoito anos já era suficiente para ser convocado - está posto. Leiam porque, além de toda a relevância sócio-política e cultural, ainda é extremamente bem escrito e estimulante - é difícil largar. Vamos falar sobre ele depois, estou por aqui. É uma discussão que vale uma mesa, muito café e gente pensando junto.  

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