Crítica: A vida Invisível (2019)

by - junho 16, 2020

Do livro de Martha Batalha para o cinema de Karim Ainouz, A vida invisível de Eurídice Gusmão alcançou dois grandes marcos da cultura brasileira: o livro já era um sucesso antes de chegar ao Brasil - sendo brasileiro - e o filme é aplaudido largamente por onde passa. Hoje é o dia de falar do filme, aproveitando a participação de Fernanda Montenegro nele, nossa Artista de Cinema de junho.

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A vida invisível (2019)
Adaptação do livro de Martha Batalha, A vida invisível  é dirigido por Karim Ainouz e não é exagero dizer que, desta vez, o filme supera o texto. O drama conta a história de duas irmãs, Guida (Júlia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte), que tomam caminhos diferentes, quando uma decide fugir para a Grécia para viver um grande amor e a outra permanece e se casa, com a ambição de seguir para Viena tempos depois. Ambientado nos anos 50 no Rio de Janeiro, acompanhamos em paralelo os desencontros das duas, que acabam vivendo na mesma cidade sem saber e passam a vida buscando uma a outra.

A sensibilidade experiente de Karim Ainouz vem com toda a força neste drama de amor familiar e força feminina. As personagens parecem sempre estar pela metade, com se seus complementos andassem invisíveis ali perto, mas nunca à vista. Em Guida há uma rotina à parte, longe do berço, fazendo a vida pobre se tornar algo. Eurídice se manteve em família, com seus desejos e ambições sempre empurrados pra frente, em um pai que lhe queria casada, em Antenor (Gregório Duvivier), um esposo caricato que lhe quer em casa. A performance do ator incomoda, talvez pela proposta do exagero - que quem sabe não parece real demais naqueles anos 50 e em muitas casas dos nossos 2020. O que vale aqui é o olhar delas em grandes performances que sustentam a trama até o desfecho, quando então, Fernanda Montenegro (Eurídice), em poucos gestos e palavras, domina a tela.

Enquanto o texto não me provocou o desejo que fez Karim abraçar a ideia, seu filme vale ouro. É impressionante como ele imprime uma verdade na narrativa, como torna suas histórias - Madame Satã (2002)O Céu de Suely (2006), Abismo Prateado (2011) e Praia do Futuro (2014) - dotadas de uma sensibilidade, um olhar de observador experiente, como se, em até nos protagonistas mais imponentes, coubesse uma introspecção que promove uma identificação imediata com o que está sendo contado. E isso acontece com qualquer uma de suas histórias, com todas. É um dos grandes nomes de nosso cinema e vale acompanhá-lo de perto. 

Em Cannes ano passado, A Vida Invisível levou o prêmio Um Certo Olhar. Além dele, outros 15 prêmios e 17 indicações entre direção de arte, melhor atriz, coadjuvante, diretor, fotografia e melhor filme espalharam a obra pelo mundo. Não que isso sirva para o grande público, mas é, ao menos, um atestado de que há um olhar critico e um cuidado estético, um apuro na produção. É um bom momento, por fim, para se reconectar com nosso Brasil através de nosso cinema, se enxergando ali, vivendo e reverenciando a nossa cultura. 

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