Crítica: Os Miseráveis (2019)

by - junho 11, 2020

Os miseráveis, de Victor Hugo (1862), já foi ao cinema e teatro muitas vezes, mas é provável que, em nenhuma delas, tenha abordado o tema de maneira tão contundente como este, de 2019. Ladj Ly faz uma versão crítica e profunda, que atravessa a obra em vez de adaptá-la. O resultado é impressionante.

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Os Miseráveis (2019)
Não espere encontrar Jean Valjean, Fantine, Javert e Cosette. Não é uma adaptação, mas talvez uma influência do escritor sobre o filme que se traduz aqui. Da mesma maneira, não é um musical romântico como o filme de 2012, mas um drama tenso. A crítica social segue firme, assim como sua revolução.

Esta é a história de três policiais que fazem ronda em um subúrbio pobre parisense, eles são a BAC - Brigada Anti-Crime. Um deles é novo na equipe e vai viver seu primeiro dia de trabalho com os outros. No caminho, os três passam a se conhecer e vemos como eles se relacionam com o bairro, um deles sempre ultrapassando um pouco os limites do dever, mas mantendo a ordem sob uma comunicação com os poderes paralelos da comunidade de herança diversa, os imigrantes. Tudo vai bem, mas quando  uma das crianças rouba um filhote de leão do circo local, a frágil calma é suspensa: as relações de poder e parceria, os preconceitos, o descaso governamental, a grande história imperialista francesa e suas colônias sempre marginalizadas emergem.

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Os Miseráveis - poster

A construção narrativa é brilhante. A primeira sequência do filme traz a França como campeã da Copa do Mundo de 2018, todos nas ruas, bandeiras e fogos. Paris está em festa e parece só haver liberdade, igualdade e fraternidade. Até o dia seguinte. As revoluções históricas e crises políticas do país, que deveriam ter promovido à força uma sociedade mais justa, mantém seus alicerces racistas e preconceituosos no abandono estratégico do governo às periferias. Assunto com que os brasileiros podem se relacionar automaticamente: vivemos esse dia a dia de violência, preconceitos e morticínio de negros e pobres no Brasil. E sabemos como isso acontece lá, os noticiários e redes sociais confirmam, como aqui, a ascensão da extrema direita com suas facções neonazistas, os franceses parisienses que se acham mais relevantes do que qualquer outra pessoa, e que, conforme o policial 'são o poder', acima de tudo e de todos. 

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a força policial: Stéphane, Chris e Gwada
As diferenças entre os personagens policiais, Chris,o branco (Alexis Manenti), Gwada, o negro (Djebril Zonga) e o que acaba de chegar do interior, Stéphane (Damien Bonnard), vão aparecendo na medida do incremento dos conflitos. É possível compreender a visão de cada um, é possível entender que ninguém é completamente corrupto ou perverso, como ninguém está acima de todos, com uma bondade e ética absolutas. O roteiro é tão preciso que não precisa trazer isso como discurso, mas em gestos e poucas falas, sem flashbacks explicativos. Mais uma vez, todos os garotos do filme lembram os nossos garotos brasileiros assassinados dia sim dia não nas favelas e ruas. Os três policiais são também como os nossos policiais, é quase doloroso compreendermos tão bem aquela situação e nos indentificarmos.

O filme nos provoca uma tensão e mantém firme seu propósito político e de denúncia. Seu ineditismo resulta na coragem de expor à carne viva os abusos, desvarios e despreparo do poder público. O filme é como uma grande explanação sobre a situação francesa que, tal qual os Estados Unidos com sua Estátua da Liberdade abrindo o coração apenas para brancos, o lema da trípide francesa conquistado séculos atrás a sangue e fogo não cabe aqui, não chega nas favelas verticais que não aparecem nos filmes de Torre Eiffel, Champs-Élysées e Arco do Triunfo

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As crianças
Em uma cena, Stéphane tenta apaziguar os ânimos e chegar a uma conclusão menos pior para os envolvidos. No meio do diálogo com o dono mulçumano de uma lanchonete de kebab, eles citam as manifestações de 2005. Naquela época, em um dos bairros periféricos da capital francesa, um grupo de jovens incendiou carros e tomou as ruas em confronto com as forças policiais. O protesto se amplificou exponencialmente em todo o subúrbio, tomou as ruas da capital e das maiores cidades francesas. Agora, quinze anos depois, eles temem essa repetição e o que o policial diz é que, mais uma vez, gerará prejuízos financeiros e nada mais. Não é isso que vai mudar o comportamento e o pensamento sobre o social naquele país. A triste realidade é escancarada para todos, uns mais e outros menos, mas todos vítimas do sistema.

Em tensão sempre crescente e com muito assunto a discutir, por pouco não chega ao atordoamento que Bacurau provoca em sua agilidade e explosão de ideias em pouco tempo. Estes Miseráveis se voltam à questão da imigração, das crianças e da revolta que isso provoca - hoje e sempre pontos sensíveis da sociedade que insistiu em uma longa história de colonização. O sentimento de revanchismo surge como uma força de vitória nos minutos finais, mas também um peso, quando não há como vencer uma guerra já perdida. Com elenco jovem, novo e diverso, é uma glória ver um grande filme francês não branco, para renovar o nosso olhar. Encerrando tal qual a história que acabamos de assistir, seguem aqui os devidos créditos ao mestre que originou a obra. E tente não piscar nos minutos finais.

"Meus amigos, lembrem-se disto.
Não há plantas más, nem homens mais.
Há apenas maus cultivadores."
Victor Hugo, Os Miseráveis.

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