Tempo

by - maio 27, 2020

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Fazemos uso das horas
As alongamos quando escovamos os dentes
Penteamos os cabelos
Varremos a casa

E queremos o tempo voando
Para que a curva se aproxime de uma reta
Essa geometria dos traços e corpos, sempre perfeita em sua imperfeição

O tempo é também de espera, os setenta dias que se tornaram mais, o governo que, em descaso, os empurra pra frente quando acha que o pode derrotar

Brasileiros e resistentes, seguimos. 
Entre os que hasteiam uma bandeira em mal e mau uso, entre os que, se pudessem, a usariam como cobertor no passar frio das ruas. Estes também esperam por melhores dias

Em casa, espero. Oscilo entre o tempo ocioso, o da criatividade, o do emprego e de sua busca.
O tempo do desejo e da preguiça. O tempo ansioso e angustiado da saúde – particular e coletiva.

Sigo de longe vendo o mar, privilégio e tortura. O mar faz passar o tempo, alivia a alma.
O mar pesa como a saudade na distância que, só olhando pra ele, não a cura.
Para o mar eu rezo e peço pelo nosso encontro, pelo sol que banha minha baía, minha Bahia.
Pela água morna que nos abraça e arrepia de amor.

Na cama, aguardo as resoluções da mulher independente.
Suas aventuras se transformaram em sonhos de travesseiro e promessas.
Os objetivos de conquistar o mundo persistem, ainda que enrolados no cobertor, quando a brisa fria entra pela janela.

Em Salvador, sigo. 
Na riqueza de ter a família e os amigos de infância por perto.
Na saudade de ver o Rio dos amigos da vida adulta, de longe.

Esse tempo que nos marca, que queremos curto e extenso, precisamos dele neste descompasso para viver. 
São tempos de espera e ação. E inação.
São o tempo que dissemos não ter e que agora nos afoga, mas também afaga.

O tempo virou esperança, ao nos compararmos com outras nações.
Mas também é desespero, ao nos compararmos com outras nações.

É tempo de mudança, como disse minha mãe. 
E ela não carrega matéria, como o meu trânsito constante entre as cidades que escolhi viver. 
Ela carrega afeto, amor, amizade, trabalho e luta.
Mas, ela também precisa carregar mais, precisa de munição – palavra de violência.
Precisa de energia, palavra de potência. Precisa de calma. E de tempo.

Sem tempo não tem respiro, não tem exílio, não tem reflexão.
Esse é o tempo que promove a mudança de dentro, do indivíduo e de fora, da sociedade.
É finalmente o tempo de olhar, de perspectiva, de expectativa. De perceber o tempo da natureza e se entender na simbiose com ela. De viver sua conexão com a terra, com os animais, como parte deste sistema, que acreditamos em vão controlar.

Esse é o tempo dos homens, que nunca realmente o compreenderam.
O tempo do humano é o tempo de todos no mundo.
Só não pode mais ser um tempo de ignorância e arrogância.

É o tempo da natureza. Essa sim, a verdadeira vida, que se faz em conjunto e nos contempla.
Esse sim, o tempo dos corpos, da saúde, da doença, da destruição e dos recomeços.
Um tempo que parece de espera, quando pequenas revoluções acontecem todos os dias. Nada está parado.
Nem nós, dentro de casa, esperando. Em nós, em silêncio, mudamos. Pequenas revoluções acontecem todos os dias.

Grávidos de projetos, ideias, vontades e viagens, seguimos. 
Seguimos jornada dentro de nós mesmos, buscando força, amparo e afeto, para nós e para os nossos.
Vibrações para o mundo, a solidariedade pelo desconhecido, pelo enfermo, por todos.
Empatia é palavra forte, mas pouca. É amor nosso, compartilhado.

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3 Comentários

  1. Como te falei ontem, eu adorei esse texto. Acho que a forma que você escreveu aqui representa muito bem o tempo real e não o tempo tradicional de relógio ou da rotação da Terra. Me relacionei com a narrativa, com as sensações e sentimentos que estamos sentindo nesse estranho período das nossas vidas. Amei a pegada mais subjetiva, acho que caiu muito bem para esse tema.

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  2. Lindo! Nunca estive tão grávida.
    Continuamos compartilhando amor.

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