Mesa para dois

by - maio 13, 2020

Ela é uma pessoa muito organizada, eu bem sei. Vendo de longe, uma moça tranquila e feliz, casa limpa, cada coisa em seu lugar. No trabalho, não consegue se concentrar se sua mesa estiver bagunçada, sendo que está quase sempre vazia. Passei lá um dia para conhecer e te digo, se fosse demitida hoje, não levaria nem uma caixa, possivelmente deixaria tudo lá, lápis e canetas em uma caneca corporativa, calendário corporativo, um ou outro desenho na parede, nada fundamental, só uma lembrança de sua personalidade. Não fossem eles, poderia ser a mesa de qualquer um.

Ela odeia passar roupas. E não consegue sair de casa amassada. Passa saias e blusas sofrendo, assim como evita passar pano no chão. As rugas do tecido lhe irritam na mesma intensidade que os cabelos que grudam no pano ou se escondem nas linhas do piso. Ela me disse que são coisas que lhe desgastam, porque não faz sentido passar pano e deixar cabelos grudados no piso e perde um tempo absurdo na repetição dos movimentos. Logo ela, que odeia refrão de música.

Odeia barulho. Quando lê, cozinha, trabalha, acorda, faz absolutamente qualquer coisa, não entende porque as pessoas precisam falar tão alto e todas ao mesmo tempo. Essa movimentação em seu entorno lhe distrai e se perde nos afazeres, tantos e tão diversos que seu cérebro precisa encaixar tudo em pequenas células, como numa planilha da vida. O barulho mescla essas células sem ordem e lhe deixa num estado de perplexidade com o olhar parado, fixo em algum lugar imaginário. Na certa, ela está olhando para esta planilha, reemoldurando suas células em colunas e linhas.

Olhando de fora, nada disso parece verdade. Somos amigos há vinte anos e seu riso solto, sua fluidez no andar e conversar com as pessoas por um tempo parece infinito e suave para os outros. A verdade é que ela não consegue decidir nada a seu favor, facilmente. O que quer, para onde vai, seus sonhos e desejos. É o caos. E se qualquer outra pessoa teria o olhar parado nestes instantes, ela faz o oposto e foca em tudo ao mesmo tempo, eliminando a profundidade de campo tão necessária à fotografia.

Ela me contou que entrou na terapia. Tomei um susto e ela seguiu dizendo que contou sua história toda na primeira sessão, como se lesse um conto. Que não esperava soluções práticas, uma mentira que me fez gargalhar e a irritou. A moça mais organizada, calma e feliz é uma desordem só, um novelo que a cada sessão se desfaz e refaz porta afora. Como os pequenos nós de seu cabelo de fios finos demais, que insistem em fazer pontas duplas. Ou como a cada ressaca, em que se promete beber menos. Até a próxima ressaca. Ou como aquele paquera idiota, que ela achou ter acertado dessa vez, mas conseguiu ser ainda pior do que o anterior, nem português falava direito. Logo com ela, que se incomodava quando escutava alguém errar verbos, fazia brincadeiras sórdidas com as palavras dos outros, escondidas em um sorriso condescendente e mordaz. Não tolera que falem errado por preguiça, esse atraso do pensar que lhe dá vontade de dar um tiro na vítima: uma justiceira da gramática. É a melhor pessoa que eu conheço. E a que mais odeio hoje.
***
Um conto para desenvolvimento de personagens, de maio de 2016, tarefa de uma oficina de escrita criativa. Uma brincadeira entre verdades e mentiras, enquanto dois amigos tomam café, conversam e se olham em uma mesa para dois.

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2 comentários

  1. Uau, uau, uau! Maravilhoso demais, estou sem palavras... Já falei inúmeras vezes o quanto eu gosto de seus textos e de sua forma de escrever mas sinto, a cada novo texto que você publica, que eu preciso encontrar novos adjetivos, novas formas de expressar o quanto eu gosto deles.

    Quero mais da estória dos dois, o porque o narrador - acho que no masculino porque ele diz 'somos amigos' - agora a odeia.

    Até me inspirou a escrever minhas próprias estórias com mais afinco. Amei demais <3

    PS: Cadê pega-varetas? Saudades das minhas crianças...

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    1. Hahahahahaha... as crianças, ne? tenho que trazer tanta gente de volta pra cá, que quase já formei uma família de personagens. hahaha <3 brigada sempre, Leu! E tô esperando seus textos!

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