Livro da Semana - A Revolução dos Bichos

by - maio 02, 2020


Esse foi um livro que demorei a ler. Quando cheguei ao mundo, ele era mais do que importante há décadas, é de 1945. A Revolução dos Bichos, de George Orwell é um clássico universal, como o livro de Molnár, mas sob uma ótica completamente diferente.

Fácil de ler, é preciso que se faça quando adulto. Parte de mim ficou feliz por não ter lido o livro tão nova, para que já tivesse 'alguma cabeça' para entender as nuances, os diversos significados de uma obra escrita de forma tão simples, aparentemente. Mas, os melhores são assim mesmo. Sou super crítica aos textos ilegíveis, aqueles que vêm cheios de soberba e 'polissílabos', como se fosse preciso carimbar o currículo do autor em grandes orações. Sou adepta de uma escrita tranquila, que consiga se entender sem esforço, por isso, simples - sem perder suas complexidades. As ideias sempre podem ser profundas e múltiplas no texto, mas acho que ele, em forma, não deve impor obstáculos. É uma opinião.

Voltando aos bichos, acontece uma revolução de bichos numa fazenda, literalmente. É uma terra de animais operários, provedores, facilitadores das vidas humanas - e só nos cabe alimentá-los, limparmos seus excrementos e usufruir de tudo o que produzem. Um dia, eles cansam desta vida opressora, sem férias, descanso, décimo terceiro, direitos trabalhistas e ´humanos´ e tomam o poder. Estando na semana do dia do trabalhador, a temática é válida.

Ed. Globo, 26a edição, 1987 
É claro que, se formos adiante apenas com a história literal de uma revolução animal numa fazenda, já seria um livro impressionante e original. Se não contextualizarmos, se assumirmos apenas a primeira camada de sentido, já dá pra vislumbrar uma relevância literária. O negócio é que, já no primeiro capítulo, nas primeiras frases, entendermos que superficial é um termo que não se aplica.

Todo o livro é uma construção em cima da Revolução Russa, do Stalinismo, das teorias de Marx, das críticas ao Capital, do imperialismo. Orwell reconstrói nossos sistemas de poder, dando a cada animal da fazenda, um conjunto de características que o transforma em função ou personagem social. Não suficiente, o livro tem um humor ácido que se percebe como uma sequência de exclamações explodindo dentro de nós. Cada frase parece matematicamente construída e ali posicionada para surtir um efeito o que, de fato, funciona.  

Estamos há algum tempo em certo modelo de sociedade e a História nos traz à lembrança e conhecimento outros de que somos filhos. No livro, este passado volta como metáfora para nos lembrar que, como herdeiros, ainda há o que receber, ainda há mais História e histórias para viver, sistemas opressores para sofrer ou quebrar. O medo é o que pode vir depois de uma revolução, esta nova proposta revolucionária de governo que deve romper com um sistema anterior nem sempre é nova, muitas vezes vem apenas e literalmente, pintada com outras cores. Basta encarar nosso país e encontraremos ressonâncias. E essa é a importância de um clássico: ele ressoa e ultrapassa o Tempo, independe dele. Uma obra clássica, de qualquer manifestação artística, encontra caminhos através de nossas histórias cotidianas, pessoais, locais e universais e nos faz parar um momento e refletir, para além do prazer de a conhecer. É o que a torna fundamental. 

Última edição: Companhia das Letras

Posts Relacionados

0 comentários