Livro da Semana: O médico e o monstro

by - maio 30, 2020

Para ler agora, trouxe um livro diferente, um clássico destes que achamos que conhecemos a história toda mas, quando pegamos, um novo mundo se abre diante de nós. Tanta coisa eu não sabia sobre ele e, de tão bem escrito, faz pena ser tão curto. É o momento de conhecermos Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou O Médico e o Monstro - o estranho caso de Dr. Jekyll e o Sr. Hyde.

livro-da-semana-stevenson

Publicado em 1886, estava pronto desde 1885, foi uma encomenda para o Natal, época em que era costume ler histórias de terror à beira das lareiras no Reino Unido. Robert Louis Stevenson, natural de Edimburgo - essa cidade maravilhosa que visitei e um dia comentarei por aqui - já era escritor de renome, mas ainda não havia conquistado sua independência financeira, lhe faltava um best seller. Este, em tese, não seria o escolhido, era pra ser uma história de consumo rápido cujo lançamento foi adiado por haver farta quantidade de escritos quando ficou pronto. Esse era o contexto do fim do século XIX, quando os textos tinham lugar de destaque na vida cultural e íntima das famílias. Era também o momento em que a psicanálise estava a uma década de seu 'nascimento'; suas ideias sobre a complexa mente humana já pairavam nas principais capitais europeias. 

Dr. Jekyll é um médico conceituado e de respeito na capital inglesa. Com amigos fieis, é sempre casa cheia, mas algo misterioso se passa em sua vida, que seus amigos mais próximos passam a notar sua ausência e reclusão. O médico fez uma amizade incomum com o Sr. Hyde, homem soturno e de aparência desagradável que provoca mal estar em quem lhe chega perto, como se uma energia negativa emanasse dele. Nesse ponto, lembramos imediatamente de Frankenstein, outro clássico magnífico, de Mary Shelley, que como este parece um relato de diários e agendas, mas se intensifica em uma narrativa fluida em 1823. Mas calma, sigamos em frente.

penguin-book-dr-jekyll-mr-hyde
O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson
O sr. Utterson, amigo de longa data do médico, seu advogado e guardião de seu testamento estranha que o documento o oriente a transferir todos os bens do médico ao Sr. Hyde, caso o primeiro venha a falecer. Há mais por vir, um crime cometido, uma atrocidade, desafios à moral e essa junção que dá nome ao livro: o médico e o monstro: indicações de supostas perversões por parte de um, enquanto o outro se mantém um grande e honrado cidadão. 

Há muito o que discutir neste enredo de pouco menos de 150 páginas. Não à toa, os críticos da época já assinalavam que era um livro acima das histórias de fim de ano, a côrte chegou a lê-lo, padres e pastores o utilizavam em sermões sobre a dualidade do homem, a luta entre o bem e o mal dentro de nós. Mas, não tratava apenas destes temas, como trazia o contexto da época, estratégia inaugurada pelo próprio Stevenson nos romances góticos. Antes deste, os livros tratavam de cidades afastadas, sorumbáticas, perdidas entre florestas densas e escuras e em outros tempos, em uma idade de trevas. O autor trouxe o terror para perto, para as avenidas cobertas de neblina e lama de Londres, das ruas mal iluminadas, dos bairros perigosos.  Ao mesmo tempo, não trouxe o sobrenatural, mas um relato íntimo, como o que fazemos em diários e agendas, sobre o comportamento humano, o que era aceitável e recriminável, a sexualidade, perversão e repressão. A forma escolhida para tratar disso foi nada menos que brilhante, especialmente ao lidar com aparência física - e agora lembramos de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, que chega anos depois, em 1890 - e com as consequências de nossos atos.

O médico e o monstro não apenas é uma ótima distração - enquanto entretenimento - como facilmente a ultrapassa. Há muito prazer em ler, a construção da narrativa entre senhores respeitáveis e atos abomináveis, o fato de descobrirmos junto com os personagens o que vai acontecer, os temas e seus tratamentos e como dá vontade de sentar com quem já o leu e discutir por horas tudo o que não quero dissecar aqui, para manter o suspense e a curiosidade de quem for ler este romance gótico. 

 * * *

Quando terminar, me chama para um café? E enquanto isso, por que não passa no buy me a coffee e me oferece um? Assim consigo manter esse blog maravilhoso a um custo quase zero para todos =)

Você também pode gostar

0 Comentários