Livro da Semana: Meus documentos

by - maio 15, 2020

Passeando por textos de séculos passados, me deparei com este e deu saudades. Acabei me reencontrando com ele, que virou o Livro da Semana de hoje. Esse deve ser o quarto e ótimo livro do escritor, lançado no Brasil. 

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Quando estava lendo o livro de contos Meus Documentos, de Alejandro Zambra, feliz com a constância das publicações do chileno por aqui, me deparo com uma surpresa que quase virou horror: já havia lido uma história daquelas. Era o ‘Instituto Nacional’, sobre as percepções de um garoto na escola sobre seu colega, o número 34 na chamada de ordem alfabética. Assustada, procurei quem era o outro autor, sem acreditar que estava diante de um plágio tão descarado. Depois de 3 dias de incômodo, como uma pedra no sapato que insiste em nos machucar, lembro e respiro aliviada, rindo da própria estupidez: Zambra havia publicado aquela mesma história meses antes, na Piauí. Minha fé na humanidade havia sido restaurada. 

Meus documentos é o quarto livro do escritor chileno publicado pela (agora extinta) Cosac Naify. Bonsai (2006), o primeiro, te pega de jeito com uma frase de final de livro na primeira linha da primeira página: no final ela morre e ele fica sozinho. Curtinho, dá pra ler na duração de uma viagem de ônibus e dói ter que deixá-lo. Em A vida privada das árvores (2007), ficamos angustiados enquanto a mãe de Daniela, Verónica, não aparece e Julián precisa cuidar da garota. Como diz o primeiro capítulo em uma metalinguagem que faz parte de sua escrita – nos entregando o jogo de cara e, ao mesmo tempo, nos forçando a ficar – enquanto Verónica não vem, não há final

Como se não bastasse, ainda temos Formas de Voltar para Casa (2011) e suas memórias sobre uma ditadura que só viu de relance e com o olhar da infância, sem ter a clara noção dos horrores ao redor, mas com um sentimento de tristeza e silêncio que perdurou em todos que passaram por aquele momento. Meus Documentos (2013, no Brasil em 2015) é autobiográfico e funciona no encontro com as memórias da infância, para buscar – agora como escritor – reconstituí-las no presente. 

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Zambra consegue, com poucos adjetivos e descrições, nos manter presos em cada linha, aguardando uma ação, ou apenas vendo aquele que também espera alguma coisa. Em construções onde é quase impossível discernir ficção de não-ficção nos quatro livros aqui publicados, no último isso é levado a outra dimensão. Como o personagem menciona no conto que dá nome ao livro, seria a reunião de histórias na pasta ‘meus documentos’ do computador. Vemos um pouco da história pessoal – ainda que haja entradas da ficção – se entrelaçar com a do Chile, sua ditadura e posterior abertura política. Suspiramos com uma vã expectativa de que as histórias não se acabem – mas já estmos acostumados com os romances anteriores. Em seus contos bem escritos, falta tempo e espaço para o que queremos seguir. Há um constante desejo de permanecer ali – ainda que não venha sempre acompanhado de felicidade – sua escrita nos remete mais a uma angústia, alguma tristeza e silêncio. Ele rememora as nossas próprias histórias – não importando quão diferente sejam, como um sentimento sobre passado, que traz algo de similar com nossa própria herança e histórias brasileiras. 

O autor trabalhou como crítico de literatura por dez anos antes de lançar seu primeiro livro. Entre seus escritos – ensaios, poemas, contos e romances – levou 7 prêmios e foi indicado a outros 6. É também doutor e professor de literatura.

*texto publicado em 2015

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