Ema, Pablo Larraín

by - maio 01, 2020




O mubi exibiu hoje, gratuita e mundialmente, Ema, o novo filme de Pablo Larraín. Estamos neste isolamento social e ir aos cinemas é impensável. A estratégia do streaming de filmes do circuito alternativo deu certo. Com público restrito e um filme ousado, tentou abarcar mais espectadores para o serviço que, de fato, é interessante. Contudo, tal qual sua oferta de filmes, este não é para todo o público. Para ver Ema, a sugestão é de que se faça como em uma sala de cinema: se fechem as cortinas e se ganhe uma penumbra, imponha-se um silêncio confortável com o celular no não perturbe. Não é um filme para se ver como segunda tela do cotidiano.

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Um casal jovem de bailarina e coreógrafo, Ema (Mariana Di Girolamo) e Gastón (Gael García Bernal), luta para aceitar e serem aceitos por terem devolvido o filho que adotaram. Um circuito de dor, humilhação, escárnio, culpa e ternura permeia boa parte dos diálogos, enquanto eles tentam se reencontrar entre o fim de um espetáculo e os ensaios para um novo. O corpo de baile entra junto e participa como uma extensão de Ema – alonga-se pelos espaços, reproduz seus movimentos, espalha-se como o fogo dos incêndios provocados por toda parte.


Ema entende que precisa ter o filho – agora com outros pais – de volta, e invade a nova família com uma estratégia perversa e calculista. Ela conquista a todos, os seduzindo. Seu corpo é arma e objeto de desejo. O que temos de história é isso: uma coreografia, como uma bailarina que impõe ritmo e movimentos sobre outros para atingir seus objetivos.

Com um comportamento como alguém acima de todos, fruto provável da arrogância da juventude, é como o sol que queima no cenário do primeiro espetáculo e o fogo que faz arder pelas colinas e ambientes esvaziados de Valparaíso. Uma aparente ausência de sentimentos faz parte dela, mas há nuances que nos deixam ver além, como a relação com sua irmã e as mudanças repentinas de opinião em discussões com o marido. É essa a importância da personagem, para além dos discursos. O não dito é muito mais interessante do que os diálogos, que parecem servir de acessório, adendos à experiência estética que estamos vivendo. 


Os ensaios para o novo espetáculo não evoluem, Gastón perde relevância sobre seu corpo de baile e Ema, mais uma vez, encontra na equipe uma transgressão, uma provocação que emana da música; ao invés de buscarem a erudição das apresentações de dança contemporânea em teatros, os bailarinos buscam nas ruas o reggaeton, ritmo popular que tomou conta do Chile, como o funk no Rio de Janeiro ou o pagode em Salvador. Gastón tenta um discurso de repúdio defendendo a mulher enquanto sujeito, ao rejeitar esta apresentação dos corpos com a objetificação do feminino por um desejo vazio - a analogia com as músicas de presídio é de se pensar e fica difícil discordar. Ao mesmo tempo, uma das bailarinas reverte esta lógica, traduzindo os movimentos como uma permissividade autorizada dos corpos, a exibição dos desejos, a manifestação da libido como uma demanda do ser, uma transgressão em prol do prazer e reconhecida como tal. Seria ali o oposto das prisões - uma liberdade provisória autorizada pela música?

A aceitação e entrega provocante e provocada pelo reggaeton é uma manifestação política de seu poder popular e cultural. A redução de uma música que atinge a todos em detrimento de outra que se encerra em salões de baile é um ponto; o comportamento, as funções do corpo, a sensualidade e suas expressões acordadas com o ritmo, é outro. Para além disso, a defesa do popular em um circuito alternativo - o cinema de arte - é uma abertura interessante, quando universidades públicas foram ameaçadas de privatização naquele país e tendo Valparaíso como um dos palcos principais das manifestações estudantis. Larraín provoca o espectador intelectual, o faz repensar as condições da elite, as imposições culturais, aquela velha herança europeia de erudição e a descaracterização do que vem do povo. Uma alfinetada sutil e precisa em um momento importante da história chilena e mundial.


As danças nos seduzem e é fácil não prestar atenção nas estratégias de Ema; o mais importante é como somos hipnotizados por uma  fotografia impressionante. Estes planos aproximados dos rostos, a câmera parada - como em Jackie (2016) - como se nos dissesse: eu quero que você veja isso desta forma, como uma educação do olhar - a perfeita sedução do cinema, o voyeurismo. A trilha sonora corrobora e potencializa nosso atordoamento. Até o desenlace, estamos envolvidos nas cores e planos, nos rostos e bailes de corpos - nas discussões deste casal disfuncional e equilibrado sobre suas dores, cuidados e culpas. Beiramos os relacionamentos abusivos, escondemos a poeira da moralidade debaixo do tapete e ficamos imersos neste caos para todos e aparentemente calculado da protagonista. A solução fácil - até demais - que ela encontra, ganha um desfecho que intriga em uma troca de olhares. Talvez possam existir mais desobramentos e menos ingenuidade em cada um do que havíamos notado antes.

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