Crítica: Psicose

by - maio 19, 2020

Seguindo nossa trajetória com o Artista de Cinema de maio, eis aqui um pouco mais sobre Psicose, de Alfred Hitchcock. Um de seus mais aclamados filmes, uma adaptação literária que mudou o cinema, o público e a crítica. 

Psicose (1960)
Psicose é um filme maravilhoso. Eu sei, não dá pra aceitar a frase como síntese de crítica, mas poderia parar por aí e pedir pra verem o filme. Hitchcock conseguiu fazer uma obra para pessoas do cinema, que analisam, vivem, trabalham no ramo e ainda conquistou o público, controlando suas emoções num crescente até o final, com uma última cena perversa e sedutora ao mesmo tempo.

Assisti novamente esta semana. Tinha visto algumas vezes e, apesar de gostar muito, não é meu preferido – fico entre Janela Indiscreta (1954) e Os Pássaros (1963). Depois de reler Hitchcock/Truffaut, relembrei dos detalhes da produção, o cuidado e a inteligência por trás de tudo. Rodado com 800 mil dólares e tendo retorno (dados de 1967), de 18 milhões (hoje: 50 milhões), é um dos mais rentáveis já feitos pelo diretor. A questão não é sobre o dinheiro, mas sobre o sucesso de um filme, em que a cena mais emblemática acontece aos 40 minutos e ainda assim, ninguém sai da sala até o filme acabar. E olha que a maioria das pessoas já sabia o que ia acontecer – e Hitchcock ainda os proibiu de entrar nas sessões depois do filme iniciado.

O segredo está justamente em sua construção. Analisando a estrutura do roteiro, descobrimos a relevância da obra que parte de uma história simples, com personagens que, à primeira vista, não nos conquistam. Não queremos que Marion seja pega, mas também não somos apaixonados por ela. Não queremos que o assassino seja descoberto, achamos que sabemos quem ele é, mas fica aquela dúvida, inclusive sobre a qualidade da atuação de Anthony Perkins. Revendo com calma, amaremos aquele sorriso para sempre. Independentemente da nossa pouca relação com os protagonistas e seus coadjuvantes, e, mesmo que todos os espectadores tenham ido ver o filme pela cena do chuveiro, ela não é ponto alto da trama. Para quem não viu, o filme conta a história de Marion Crane (Janet Leigh), que rouba de seu chefe 40 mil dólares e foge. Para passar uma noite longe de suspeitas e descansar, se hospeda no Bates Motel, um hotel de beira de uma estrada secundária, quase abandonado. Lá, conhece o proprietário Norman Bates (Anthony Perkins) e é assassinada. A partir disso, a história se desenvolve num ritmo tal, que outras cenas também ficarão em nossas mentes para toda a eternidade, consolidando o status de obra-prima.

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Marion Crane (Janet Leigh) e a cena do chuveiro

Com dois acordes de Bernard Herrmann – compositor das trilhas de Hitchcock – nunca mais conseguiremos tomar banho de chuveiro tranquilos com a cortina fechada. Sempre trancaremos a porta do banheiro e checaremos uma vez mais, como quem não quer nada. Esta sequência foi rodada em uma semana e fizeram setenta posições de câmera para seus 45 segundos finais. Hitchcock sempre fez uso de storyboards e era obcecado pelo controle do que fazia, de tal forma que preferia recriar ambientes externos inteiros a fechar ruas, preocupado com os imprevistos. Da mesma forma, quase não permitia que os atores saíssem do roteiro ou improvisassem – era conhecido por ser linha dura, fazendo as atrizes sofrerem com seus detalhes minuciosos.

Como O Exorcista (1973), que é assustador por sua invocação do mal e insistir na teoria do diabo no corpo em uma menina inocente, criando terror em nós por muitos anos, Psicose marca pela crueza do assassinato, contrastando com a natureza pacífica de quem o comete. Não há tanto sangue, mas uma estranheza na relação de Norman com a mãe, no hotel vazio, nas aves empalhadas na sala da recepção. Enquanto isso, a montagem calculada com a trilha sonora, atingindo seu ápice nos crimes e premeditações (as trilhas dos filmes de Hitchcock por si só, já valem um estudo), as tentativas de defesa das vítimas e o assassino como uma sombra de um personagem que só ouvimos a voz sem conhecer o rosto, são de uma violência que nos atinge muito mais do que os filmes policiais de hoje. Talvez o segredo esteja aí: este filme nos faz imaginar, nos coloca no lugar de Marion, como possíveis vítimas de um atentado que nos toma de assalto e permanece em nós.

Truffaut amava Hitchcock. Como eu, considerava o diretor um mestre mas, por fazer filmes de suspense, o diretor inglês não recebia o crédito da crítica, que tem predileção por filmes não comerciais. Assim, além de conhecer em detalhes o pensamento criativo daquele, Truffaut queria justificar sua relevância para a cultura cinematográfica, mostrando que o lucro pode estar relacionado com uma preocupação estética, de linguagem e forma. Segundo Antoine de Baecque em seu Cinefilia (outro livro maravilhoso, sobre a Cinefilia na França do pós-guerra), Truffaut buscava quase a fórceps, com argumentos e fotogramas quadro a quadro de algumas sequências, deixar claro para o leitor que vale a pena dedicar um tempo para entender a grandiosidade da filmografia de um diretor que gosta de aparecer (e aparece mesmo, em todos os seus filmes, olha ele aí).

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Hitchcock em Psicose

O mestre não conseguiu dobrar a crítica com Psicose, mas sente um orgulho imenso do resultado: em Psicose, o tema me importa pouco, o que me importa é que a montagem dos fragmentos do filme, a fotografia, a trilha sonora e tudo o que é puramente técnico conseguiram arrancar berros do público. E agora, ele dá o golpe de misericórdia: creio que para nós é uma grande satisfação usar a arte cinematográfica para criar uma emoção de massa. (...) Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não foi uma grande interpretação que transtornou o público. Não era um romance muito apreciado que cativou o público. O que emocionou o público foi o filme puro.

Por conjugar uma técnica fascinante a um roteiro bem amarrado, os trabalhadores do cinema são também aficionados por ele, que insiste: é um filme que pertence a nós, cineastas, a você e a mim, mais do que todos os filmes que fiz (porque ali era possível falar tecnicamente, discutir abordagens, movimentos de câmera, ângulos e corte, era uma conversa entre diretores). Eu não conseguiria ter com ninguém uma verdadeira discussão sobre esse filme nos termos que estamos empregando neste momento. As pessoas dirão: “Não era uma coisa para se filmar, o tema era horroroso, os protagonistas pequenos, não havia personagens.” Claro, mas o modo de construir a história e de contá-la levou o público a reagir de um modo emocional. É como aprendemos na escola: o que importa é a forma.

O encantamento com o filme é tal – e nem tratamos da temática voyeur, perversão, doença mental, moral, mulher independente nos anos 60, a primeira sequência do filme, etc – que vimos uma refilmagem supostamente plano-a-plano – incipiente – de Gus Van Sant em 1998 e agora, lançado em 2012, uma ficção também fraca sobre os bastidores da produção do clássico, intitulada Hitchcock. O canal Universal lançou em 2013, Bates Motel, série sobre a adolescência de Norman e a relação com a mãe. Esta é mais interessante do que os filmes, mas nenhum se compara ao clássico. O fato é que Psicose despertou tantos e diversos olhares que se tornou uma referência para o gênero, é homenageado em não sei quantos filmes, artigos, ensaios fotográficos e figura em qualquer lista de melhores do mundo (como Os Incompreendidos, de Truffaut). É, portanto, imperdível, e um grande programa.

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Anthony Perkins como Norman Bates

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