Artista de Cinema: Alfred Hitchcock

by - maio 05, 2020

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Alfred Hitchcock

Resolvi lançar a nova coluna Artista de Cinema aqui no Café com Alfred Hitchcock. Não foi uma escolha difícil: quando penso em figuras importantes da área, ele acaba sendo um dos primeiros - se não o primeiro - a aparecer. Não que outros não sejam importantes, a lista é imensa e subjetiva, mas porque Hitchcock representa, pra mim, uma noção completa de Cinema. Vamos a ele.

Nasceu em uma família rígida na Inglaterra em 1899, quase junto com o cinema (em 1895). Depois de passar por escolas religiosas, estudou engenharia e Belas Artes. Trabalhou com seu pai por um tempo e, com a morte deste e a chegada da Primeira Guerra Mundial em 1914, a família se muda para o interior. Ali, Hitch trabalha no departamento de publicidade de uma empresa de cabos de eletricidade. Em 1920, uma empresa cinematográfica americana se instala em Londres e Hitchcock leva alguns intertítulos (as legendas do cinema mudo) que produzia no seu trabalho e é contratado. Em 1927, lança seu primeiro filme como diretor, O inquilino sinistro. Dali em diante, nunca mais deixa a cadeira. Em 1939, já estabelecido como cineasta na Inglaterra e ganhando relevência nos Estados Unidos, se muda para Los Angeles e em 1940, leva o Oscar de  melhor filme com Rebecca. Daí em diante, faz quase um filme por ano até 1976, quando encerra a carreira com Trama Macabra. Hitchcock morreu em  29 de abril 1980.

Com uma filmografia extensa e um cuidado imenso e intenso dos aspectos de produção de seus filmes, Hitchcock era um profissional completo. Ele foi o primeiro a fazer um longametragem em um plano sequência (como se o filme todo fosse gravado de uma só vez, sem cortes de câmera). Na verdade, Festim Diabólico (1948) tinha cortes, porque os rolos de película precisavam ser trocados, então ele nos enganava fechando suas sequências com cortes em fundo preto, como ternos, cortinas, ambientes escuros. O diretor montava seus storyboards, de vez em quando quebrava a quarta parede (como se o ator conversasse com a câmera), preferia recriar ruas a filmar externas, para ter maior controle da produção, explicou para nós o McGuffin e como ele o utilizava. Definiu e diferenciou suspense de terror. Nos explicou como fazer o espectador participar da trama. Isso tudo, enquanto fazia grandes filmes.

A crítica de arte não gostava muito dele, entretanto. Não que fosse um problema, ele continuava com grande público e seguia produzindo. Havia um preconceito em torno da forma de seus filmes, como se fossem apenas entretenimento e não aquele Cinema, com toda a pompa e glória da arte. Entretanto, Truffaut, outro imenso cineasta francês era fã de Hitchcock e crítico da Cahiers du Cinéma, a revista de cinema mais relevante da época, cujos redatores eram também artistas e críticos, estudavam e definiam as teorias e bases do cinema. Ele via mais arte e complexidade no currículo do diretor inglês do que seus colegas. Truffaut via não só apuro técnico, mas reflexão, pensamento crítico além das histórias de suspense. Hitchcock era um autor de cinema, como Godard, como o próprio Truffaut, como Fellini. Um autor é alguém que desenvolve uma marca, um estilo, uma característica que torna possível reconhecer sua obra sem ver a autoria antes. Truffaut encontra seu mestre e sugere uma série de entrevistas para falar sobre sua produção. Estes encontros se transformaram em um livro - Hitchcock/Truffaut - o melhor livro de cinema de todos os tempos e um documentário posterior, com as conversas. Ali, há a inquestionável experiência, talento e maestria de um mestre sendo expostos de forma ampla e deliciosa, como se estivéssemos em uma imensa aula de cinema com dois dos maiores diretores de todos os tempos.

Hitchcock era um diretor e não um santo. Ele infernizava a vida das atrizes e atores, estabelecia suas musas - mais como uma paixão platônica do que esses infernos de assédio sexual que surgiram depois - e as 'perseguia' para que desse ali o seu melhor. Não permitia que improvisassem muito ou fugissem ao roteiro. Era mão firme e conhecido por isso. Ao mesmo tempo, todo esse controle se converteu em grandes e divertidos filmes, marcos para a nossa cultura ocidental, como Os pássaros (1963), Psicose (1960), Intriga Internacional (1959), Um corpo que cai (1958), Janela Indiscreta (1954), Disque M para Matar (1954), Rebecca (1940) e a lista é longa.  É um autor inesgotável e, para a nossa sorte, gostava de aparecer: em seus filmes e na vida. Então, há uma série de bibliografia sobre ele, inúmeras entrevistas em vídeo e filme, além do delicioso programa de tv, Hitchcock Presents. Nas próximas semanas, colocarei um pouco de tudo, para nos reencontrarmos com este mestre dos mestres. 

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