30 minutos para o caos, por Jamile Buck

by - maio 04, 2020


Naquele dia ela acordou azeda. Acordou com o zunido do celular, era o trabalho chamando. Estava como uma caipora louca, fumando tão cedo. Tudo estava tenso, marido em crise, o dinheiro falando mais alto que tudo. Parou um pouco. Se olhou no espelho do banheiro. Era uma mulher difícil. Sabia que as pessoas não caíam de amores por ela. Mas, era bonita. Sempre foi. E nesse mundo, mulher bonita não precisa ser simpática, dizia sua mãe. Ah, sua mãe! O Natal estava chegando e ela já podia imaginar os comentários, quando ela visse que o Vicente tinha engordado... Os homens não ligam pra nada, pensou. 

Há dois anos não apareciam no Natal da família. Dizia à sua mãe que eles estavam trabalhando muito. Mas, a verdade é que o dinheiro estava apertado pra viajar no período mais caro do ano. “Mas, este ano vai ser diferente”, confidenciou pro espelho. Olhou com mais cuidado e gostou do que viu. Os 51 anos eram apenas um número. "Não me representam!" Estava em dia com a harmonização facial e sabia que aquela lipo ainda estava valendo. "Beijo no ombro".

O telefone tocou de novo. "Aquele pessoal do escritório não sabe o que é privacidade". Ela passou a noite sentada sobre os documentos da auditoria e não tinha finalizado os cálculos do relatório mensal. Seu prazo era hoje. Mas, Dr. Manuel era paciente com ela e tudo tinha jeito.
- Ohh telefonee!! Alô? Oi! Tô te mandando por e-mail ainda hoje. Vou finalizar alguns pontos quando chegar no escritório (tomar no cú). Certo. Eu sei. Se tiver dúvidas me avise. Beijo e obrigada. 
– Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh!!

Correu pro banho. Ia dar um jeito. E, mesmo com o relatório gritando, o Natal na fazenda não saía da cabeça. Ficava pensando em sua mãe e seus comentários sobre o Vinícius. Putz! Ia passar esse vexame! "Vou passar meu ácido e protetor solar, isso sim..." e correu! Calçou os sapatos no caminho. Tomou o café no caminho. Esqueceu seus óculos no caminho. Chamou o elevador de desgraça que não funciona nunca e resolveu descer pelas escadas. As luzes não acenderam. "Pronto! Agora foi a porcaria da luz! Meus óculos! Tá escuro demais aqui!... Mas segurar o café também não ajuda e essa bolsaaaaaaaaaiiiiiiiiiuuuuui!"

Chão. Joelho na escada, quadril na escada, cabeça na escada e bunda no chão. Silêncio. Um gemido de dor fraaaco vai nascendo da garganta. Abriu os olhos e aquele quentinho escorrendo pela testa gritava, "toma, fila da puta, que agora não tem mais porra de natal na fazenda pra você!! Ahhhhhh!! Acho que me quebrei toda! Socorrooooo!!" – Fraco ainda, fraco.

– Socorrooooo – silêncio e escuridão.
Era muito cedo. Ninguém usava as escadas a essa hora e ela não conseguia se mexer pra pedir ajuda. 
– Socorro... ai, vontade de chorar. "Por que eu resolvi vir pela escada?", ela pensa. "E essa vida acelerada? Eu não sou mais uma menina. Já tenho 51... e o tempo... Não acho minha bolsa. Tudo escuro... vida escura..." 

O tempo passa devagar com ela ali sentada. Um devagar que o relógio não registra. Assim como não registrava o acelerado de seus dias. De repente, ela se viu em um isolamento não planejado. Um tempo sem celular tocando, sem planos de viagem, sem relatórios, nem espelhos. Só ela, a escuridão e o eco de suas ideias tortas...

***
Quem escreve
Jamile Buck é publicitária, sócia e fundadora da Agência Nova Café, designer e mercadóloga. Tudo isso importa pouco, junto da sua principal atividade: ela é a mãe do cara mais legal do mundo, Benício e contou com a colaboração amorosa da incrível Laura Haydée. Fala com Jami!

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