Livro da Semana - Ensaio sobre a Cegueira

by - abril 25, 2020


Ontem vivemos mais um momento vergonhoso em nossa política nacional. Aliás, já faz algum tempo que não aparece coisa boa, salvo o curto trabalho de Mandetta comandando a saúde neste momento difícil. Enquanto para uns parece óbvio que nosso governante não é apto à cadeira que ocupa, para outros, entregues às paixões violentas dos gritos de exaustão e desvarios, há a crença e defesa do presidente como parte de sua família, talvez um deus. Muito disso, por conta da construção do personagem, alguém que clama pelo povo - supostamente - e fala o que todos querem ouvir - aparentemente - ainda que dali, se espremendo, não saia nada.

Se fez a construção do personagem, se espalhou a narrativa com as fake news; o que era boato virou verdade e, literalmente, o contrário também se fez. Uma cegueira, como uma doença de contágio, tomou parte de nós, dificultando o trabalho da razão e ciência em troca de muito barulho por nada. Agora, vivemos as consequências destes sacos vazios de ideias no meio de uma catástrofe mundial, seguimos como o Louco da turma da Mônica, correndo e gritando por aí coisas que ninguém entende porque a fonte da razão está quase esgotada - o que nos traz ao livro da semana. 

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago
Saramago é brilhante, não sou quem diz, é o mundo. Os livros dele começam fáceis de ler, nos acostumamos à agonia inicial dos parágrafos imensos e poucas vírgulas, quando a história nos prende. Neste ensaio que é uma ficção, há uma cegueira literal que paulatinamente toma parte do mundo, como a expressão de quando esquecemos algo: 'deu um branco'. Em Saramago, a definição de não enxergar não é a escuridão, mas o branco absoluto.

Só essa ideia já deveria fazer todo mundo pegar o livro. Culturalmente, quando pensamos em não enxergar, associamos à ausência de luz. Nos estudos das cores e da física como aprendemos na escola, a cor preta absorve a luz enquanto a branca a reflete. A escuridão em nosso cotidiano, é o não enxergar, é não ter algo visível, é estar tudo às escuras. A claridade é, portanto, algo que se aproxima do claro e que, em tese, nos faz enxergar melhor. Paradoxalmente, quando nossos olhos se acostumam a um ambiente escuro e abrimos uma porta para um acesso com luz, momentaneamente não enxergamos, porque precisamos nos readaptar àquela nova situação. 

No meio dessas divagações, entra o livro com todas as suas metáforas que nós vamos construindo e adaptando ao nosso contexto. O mundo ficcional de Saramago entra em colapso, as poucas pessoas que, por alguma razão, são imunes à cegueira, vivem uma situação perigosa, porque elas podem ser escravizadas, usadas pelas que estão em desamparo ou o contrário, podem usar isso como um poder absoluto, o controle de informação e conhecimento. O que pode servir como auxílio ao outro, é também um tormento ou uma arma. É um mundo que, de súbito, se tornou dependente, indefeso e com medo. É um mundo entregue ao desconhecido e em desespero - o caos dos filmes apocalípticos.

O autor investe com precisão cirúrgica e estilo próprio em uma literatura fácil de ler, mas com ideias complexas, provocando um debate íntimo sobre ética, sobrevivência, educação, religião e tudo o que os cerca: poder. É um dos melhores livros que li na vida e é um dos melhores livros deste prêmio Nobel, junto com outro que amo, O Evangelho segundo Jesus Cristo

É um grande momento para nos ocuparmos deste Ensaio, por tudo o que vivemos politicamente em nosso país, pelos debates acalorados, pelas informações falsas, por crenças em orações absolutas, frases soltas quando tudo é relativo. Por pensar mais em dúvidas do que em certezas, porque são as primeiras que nos fazem investigar e acreditar em ciência e não em arroubos de vaidade em forma de arrotos de ignorância. Ou, pode ler para além disso tudo: é uma grande história. 

Em 2008, Fernando Meirelles fez uma ótima adaptação para o cinema que nunca vai se comparar à grandiosidade do livro e nem deve, é outro meio. Mas também, vale muito a pena. A crítica tá aqui.

Última edição: saiu uma novinha este ano, da Companhia das Letras.

Posts Relacionados

0 comentários