Com açúcar, com afeto, por Marinna Kowalski

by - abril 27, 2020

Porto de Pedras, Alagoas, 2019.
Quem me conhece, sabe que já me mudei muitas vezes; de país, cidade, estado, bairro e às vezes até dentro do mesmo prédio. Em todas as mudanças, a primeira coisa que perguntava quando chegava na casa nova era: Mãe, em que caixa está seu caderno de receitas? Se eu tivesse que escolher um item para herdar, seria esse, sem dúvida alguma.

Acho curioso ver nas páginas do caderno um pouco de farinha, respingos, chocolate, diferentes cores de caneta, mas pincipalmente, os comentários: “ótimo”, “deu certo”, “um pouco seco”, e por aí vai. Mais interessante ainda, é que as receitas ganham nomes das pessoas que cozinharam ou criaram: Biscoitos Amanteigados da Tia Leda, Bolo de Abacaxi – ótimo – da Líria, Pudim da Vizinha da Vilma, Torta de Nozes da Sandra. Quando fui morar sozinha, o caderno ficou com a minha mãe e, sempre que quero alguma receita, peço pela receita da fulana, e nunca “aquele bolo de chocolate”.

Acho lindo como as receitas ganham identidade e personalidade, é isso o que faz gerar tanto afeto. Sempre vi a cozinha como o cômodo da casa mais animado, mais acolhedor. Cozinhar juntos, é uma das coisas mais gostosas que tem, você compartilha, aprende, ensina, prova, tenta chegar a um consenso de sabores. Abrir uma garrafa de vinho, colocar uma música e passar horas ali. Às vezes, a preparação da comida é até mais gostosa do que a própria refeição. Mesmo quem não gosta de cozinhar tem um papel significativo nesse ambiente, no momento de compartilhar. Até aquele amigo que só vai ralar o queijo, picar a cebola ou lavar a louça (quem cozinha sabe que são as melhores ajudas possíveis!). Pra mim, a culinária é uma mistura de afeto, nostalgia, dengo, carinho.

Às vezes, acho que não sou muito boa com as palavras para expressar sentimentos, mas entendi que a minha maneira de fazer isso é cozinhando. O tempo, o cuidado, a escolha dos ingredientes, a dedicação quando preparo os doces, principalmente, são a minha forma de demonstrar afeto. É uma coisa forte energeticamente, enquanto o bolo assa, fico emanando energia para que cresça bem, fique bom e as pessoas gostem. Já aconteceu de ter que fazer um doce para alguém que não tenho grande afeição e a receita simplesmente desandou. Não tem como ser diferente, culinária é afeto, amor, é a concretização disso tudo.

Parte do meu processo de autoconhecimento é entender a minha relação com a culinária. Testar receitas é meu momento de relaxamento, mas também é quando enxergo minhas inseguranças, afinal, o objetivo é deixar os outros felizes, levar conforto em forma de comida. É como gostar mais de dar presentes do que receber. Por isso, quero que esteja tudo sempre perfeito.

Claramente vejo como sigo o caminho da minha mãe, que seguiu o caminho da minha avó. Ela conhece os pratos preferidos de meus melhores amigos, de toda a nossa família e, muitas vezes, estes pratos se tornam o carro-chefe da minha mãe: mil-folhas, nhocão, bannoff, pavlova, bolo de morango gelado, torta de nozes. Assim, a gente vai construindo nossa história e relação com as pessoas e, consequentemente, com a culinária.

"Comer não é apenas alimento. É sentir emoções, descoberta, memórias, viagens e partilha. Seja bem-vindo ao Amor”. Essa frase estava na primeira página do cardápio do restaurante Amor, em Porto de Pedras, onde fui com a Tati em 2019. Pra mim, é isso. Deixo aqui uma das minhas receitas preferidas. Em todos os meus aniversários, desde a infância, não queria bolo de brigadeiro, mas sim, o Bolo de Nozes da Sandra.

Torta de nozes da Sandra, do caderno da minha mãe
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Quem escreve
Marinna é potiguar, mas já morou em tantos lugares, que dá pra dizer que ela é curitibana-canadense-carioca-paulista. Por enquanto, é produtora audiovisual, trabalha e vive no Rio, mas um dia vai abrir uma cafeteria comigo. Faz os melhores bolos e doces que comi na vida. Nunca acha que estão bons o suficiente. Confia em mim e fala com ela.

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4 comentários

  1. Que texto lindo! Quero ir na inauguração da cafeteria! ❤️

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  2. Amei o texto... A paixão pelo tema - a culinária - nos faz nos apaixonar um pouquinho mais pela comida também. Adorei :)

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