À Deriva

by - abril 15, 2020

Vivendo daquele jeito.


Não deveria passar de uma sessão qualquer de cinema, em um domingo qualquer, com um amigo. Descobri hoje que filme estava passando, que dia era e seu signo. À Deriva, 24 de maio, gêmeos.

Conheci Pedro naquele fim de tarde, em uma sessão de filme brasileiro no Laura Alvim, um centro cultural na praia de Ipanema. Eu tinha um ano de Rio de Janeiro, trabalhava há pouco tempo oficialmente em algum lugar, havia estabelecido uma rotina, tudo ia bem. Meu amigo trouxe um amigo e esperamos outra amiga dele. Sentamos para conversar e alguma coisa aconteceu ali, bem antes de entrar na sessão, no intervalo de minutos quase inúteis.

A amiga apareceu como figurante e foi embora logo após o filme, Pedro ficou. Era seu aniversário e nos obriguei a beber, comemorar, rápido que fosse, um dia tão especial. Adoro aniversários, como adoro nascimentos. É a celebração clichê da vida, apenas pelo fato de estarmos vivos. Tenho medo de morrer. Não foi por isso que insisti.

Seguimos para o bar que não lembro o nome, bebemos dois ou três chopps, o suficiente para nos conhecermos, atualizarmos as regras de cordialidade e quebrarmos um pouco o silêncio dos novos encontros. Ninguém sabia que aquele dia duraria anos, e eu disfarçava para não olhar demais para ele. Trocamos e-mails porque nossa missão era contextualizar culturalmente o amigo acadêmico-workaholic e tudo virou uma conversa de dois e assim, de forma pateticamente virtual, estabelecemos uma espécie de relacionamento, uma amizade que não acaba.

Pedro saiu do Rio cedo demais e ainda não sei o que nos aconteceu. Uma série de quase flertes virtuais entre duas pessoas tímidas que conversavam por olhares, quando cara a cara quase não se falavam, porque apenas a presença do outro era suficiente para causar um rebuliço interno, uma alegria sem pensamento. O impacto foi profundo e o tempo na mesma cidade, entre se conhecer e ele partir, bastante curto.

Quero deixar claro que não acredito em amores à primeira vista e que aquilo não era um amor, era um rebuliço. Um rebuliço à primeira vista.

O cinema passou e nunca lembrei o nome do filme. Não lembrei de nada, nunca. Não conseguia me concentrar com aquele garoto, que havia visto minutos antes, agora ao meu lado, esbarrando sem querer e de vez em quando, sua perna na minha. Hoje, que na verdade fez uma semana, nos falamos pela internet novamente, depois de sei lá quantos meses ou anos, talvez. Pedro talvez esteja casado e sei que tem filhos. Conversamos sobre tudo, à exceção de nossos relacionamentos passados e presentes. Não sei se é para deixar esquecido esse ponto de realidade que nos afasta além da distância, não sei se é um cuidado ou falta de jeito para mencionar os marcos da existência. Falamos de todo o resto.

Aquela alegria sem pensamento nos interrompeu muito cedo e deixou tudo em suspensão. Virou uma leve tristeza e falta quando ele foi embora; virou passado entre novos amores e histórias. Nos falamos por intervalos, nos encontramos apenas uma vez no meio dos anos, um almoço em sua não mais nova cidade. Ali, o tempo se exibiu em toda a sua plenitude, mas, em flashes e com coragem, eu via seu rosto, um sorriso que escapava além do nervosismo dos corpos e do meu sem jeito para situações sem precedentes na história da minha humanidade.

Não sou adepta ao platônico, sou muito ansiosa para isso e essa ansiedade é, inclusive, o que me atrapalha nas situações de carne e osso. Sou matemática também, duelo entre um racionalismo ético de lógicas e espasmos de descontrole total. Existe ainda e contudo e entretanto uma ideia na memória, talvez por tempo demais — e, de leve, no peito. Não somos aqueles de nove anos atrás e nossas conversas esparsas sustentam como um fio de nylon nossas vidas, transparente e firme, nos amarrando como pode, algumas vezes mais tenso, outras tantas, frouxo. Existe, infeliz ou felizmente uma expectativa meio esquecida do que não houve, uma chance como fogo fátuo para o destino, se isso existir, ou o acaso, para um futuro incerto e indefinido, como toda a história até agora.

E agora eu te pergunto: e se tudo não passar da fantasia? Quase dá medo de quebrar o encanto e a realidade, a concretude dos encontros quase futuros resultar em nada. Ou pior, em gargalhadas. Será que há, de fato, histórias a não serem vividas? Será que parte da fantasia feliz da vida é manter a fantasia viva?

Em todo caso, o tempo não segue parado, mas curioso, me atropelando em outros encontros, me distraindo com outros presentes e ainda raras promessas de futuro.


*Originalmente publicado em 28 de abril de 2018, no Medium.

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