San Pedro de Atacama e Salar de Uyuni: uma experiência

by - março 13, 2020

Foram quinze dias no Chile em 2011. Separei sete para o Atacama. Em San Pedro, ganhei uma dica para ir à Uyuni, na Bolívia. O Deserto de Sal, que eu nunca tinha ouvido falar, me esperava. Foram poucos dias e essa viagem ainda mexe comigo. Talvez esteja na hora de voltar.


Antes de chegar a San Pedro de Atacama, eu esperava encontrar uma cidade rochosa e empoeirada, tudo meio amarronzado, aquela imagem clássica de deserto e céu limpo e seco. No norte do Chile, a cidade tem paisagens lunares e a quase ausência de umidade deixa tudo mais límpido, como se estivéssemos em uma imagem em alta definição, em 4k. A região tem um dos céus mais limpos do mundo. Estamos no deserto. É lindo e único, mas jamais como eu havia imaginado.

Uma visão distópica de grandes telescópios plantados em um jardim eletrônico torna obrigatória a visita à noite. É um observatório astronômico, uma das grandes atrações da região. Antes de correr para os equipamentos, participamos de uma conversa em uma sala redonda, a céu aberto, com direito a chocolate quente e mantas para espantar o frio. Depois de viajar por alguns minutos, ouvindo curiosidades sobre o Universo, vamos nos encontrar com as constelações, os anéis de Saturno, Marte, Vênus e Mercúrio, nebulosas, Júpiter. Quando você viaja sozinho, todos os seus sentidos parecem mais ativos e as experiências, mais fortes.


Um colega de quarto no albergue, que se tornou amigo para a vida, havia me falado sobre Uyuni, um deserto de sal na Bolívia que eu jamais ouvira nada a respeito. Ele estava fazendo um roteiro parecido com o meu, mas estava sempre dois dias à minha frente e insistiu que eu não deixasse de ir, que eu não deveria perder uma experiência tão incomum – e eu só pensava que já estava vivendo algo diferente ali, no meio do deserto. Ele sorriu. Eu agendei o passeio e minha vida começava a mudar naquele momento.

Foi um tour de quatro dias em um jipe. Montei uma mochila pequena com a maior garrafa d’água que encontrei, óculos escuros, protetor solar. Roupas para o vento e as noites geladas – nós dormiríamos em abrigos simples e sem aquecimento. Todas as refeições incluídas.

Prepare-se para se impressionar. Deixamos San Pedro e depois de cruzar a fronteira cedinho, um café da manhã nos esperava na Bolívia. Café, suco, chocolate, pão, nada muito pesado, mas o suficiente para começar o dia. Voltamos para o carro, o motorista nos levava para um mundo de sonhos. Lagos vermelhos e em tons de coral, outros em ciano. Montanhas no horizonte, céu azul sem nuvens, aquele mesmo solo pedregoso marrom claro e imensas pedras, rochas em formatos diferentes, esculpidas por décadas de ventos e intempéries. Uma pausa para um banho em uma piscina natural de água quente - as águas sulfurosas de um território vulcânico. Não havia estradas ou muitas sinalizações e nosso guia sabia todos os caminhos desta vastidão.


À medida que andávamos, a distância do nível do mar aumentava e fui me sentindo um pouco estranha. Meu corpo estava se adaptando à altitude e precisava se recompor, mas não foi nada desesperador. Um enjôo e uma dor de cabeça leves, apenas. Depois da primeira noite de sono e de um chá com folhas de coca, tudo voltou ao normal. Muitas pessoas sequer percebem as mudanças. Antes de ir pra cama, fomos à porta do nosso abrigo olhar o céu. Um mar de estrelas clareava tudo ao horizonte, um céu como nunca vi antes e nem era noite de lua cheia. Nunca deixe de olhar o céu quando for a um deserto. Não há nada igual no mundo.

Na manhã seguinte, flamingos coloriam e davam relevo aos imensos lagos que dominavam a paisagem. Árvores de pedra pareciam ter sido instaladas estrategicamente entre os espaços vazios. A sensação era de estar em uma daquelas imagens de fundo de tela de computador. Saímos algumas vezes do carro para caminhar. Eu estava viajando sozinha e nestas circunstâncias, fazer amizades é ainda mais fácil, mas escolhi aqueles momentos para mim, para andar sozinha por uns instantes e sentir aquela natureza tão distinta da que temos no Brasil.

Cada minuto nos guiava a um novo e surreal cenário. A rota imaginária nos fazia entrar agora em uma tela branca como neve e já sabíamos que havíamos chegado. Olhando em toda e qualquer direção, era um tapete branco e um céu de azul pleno e nada mais. De repente, encontramos uma construção, parecia ser uma casa – era um hotel. Paredes e móveis feitos de sal. Mais adiante, fomos a uma pequena ilha com cactos de todos os tamanhos e lhamas nos morros, uma paisagem inusitada, literalmente no meio do nada. Tudo parecia um sonho, não fosse a alegria e surpresa nos nossos olhos a confirmar aquela realidade. Quando se trata de Natureza, não há limites para a criatividade.


Continuamos dirigindo. Agora não havia construções, ilhas ou lhamas. Paramos no meio do branco e azul, nada se via além disso, os olhos ardiam um pouco pela claridade seca daquele imenso vazio. Eu gostei daquele silêncio e caminhei por um tempo. Uma transformação íntima acontecia, eu me sentia parte do Universo em sua essência, como se fôssemos duas partes da mesma substância. Me permiti estar sozinha, me sentir como um indivíduo naquele espaço. Eu tinha certeza de que aquele momento eu levaria por toda a vida. E então, era hora de tirar fotos.

O cemitério de trens foi uma conclusão brilhante de nossa jornada. Suas estruturas de ferro velhas e corroídas pelo sal nos faziam entrar em um mundo de ficção científica. Tempos depois, chegamos na pequena cidade de Uyuni, que carrega o nome de seu deserto e todos juntos, tomamos uma cerveja de despedida. Alguns ficariam na Bolívia e outros, como eu, voltariam para San Pedro. O dia seguinte foi menos glamouroso, mas eu ainda estava imersa naquelas sensações, nas muitas definições de vazio e imensidão que acabara de aprender. Eu queria sempre ver mais e conhecer mais, mas, ao mesmo tempo, deixei nosso motorista nos levar por mais caminhos sem estradas e me perdi por horas olhando tudo pela janela do jipe. Alguma coisa mudara dentro de mim. 

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