For Sama e The Cave

by - fevereiro 09, 2020

Waad e Sama à esquerda, Amani, de The Cave à direita.
Os dois filmes sírios indicados ao Oscar de Melhor Documentário têm uma guerra em comum. Incomuns não por isso, e sim pela resistência e força de duas mulheres que insistiram e defenderam seu país por seu povo, famílias e pessoas que nunca haviam visto antes. Os dois filmes denunciam, através de um cotidiano impossível não fosse real, os horrores de uma guerra internacional e civil que ataca crianças, mulheres, homens, sírios. Por serem sírios.


For Sama

Uma jornalista começa a registrar a insurgência contra a ditadura de Bashar Al-Assad em Aleppo, noroeste da Síria. Uma das cidades mais atacadas desde o início da guerra quase dez anos atrás, em 2013 festejava e lutava contra um regime de décadas de opressão. A ideia era guardar a transformação, um mundo novo por vir, com pensamento e vidas livres. O que aconteceu foi uma confluência de países que se interessam pelas reservas de petróleo e a Rússia e o Irã apoiam o regime, os Estados Unidos, o Estado Islâmico, a Turquia e os curdos lutam contra. Forças nacionais de oposição de apoio surgiram e o país é uma zona de guerra.

Ativistas, Waad Al-Kateab e seu marido médico Hamza Al-Kateab decidem ficar na cidade quando o cerco aperta e então eles já têm Sama, uma criança nascida no meio do conflito. Conseguindo manter o único hospital clandestino da região até 2017, ela filma e ele salva quantas pessoas pode, todas vítimas de tiros, bombas, ataques aéreos, armas químicas.

O registro pessoal vem acompanhado de sua voz, narrando para Sama o que acontece, na esperança de tudo mudar, na desesperança das desgraças cotidianas. O filme é triste e duro, muitas crianças sofrem e surgem no filme, o desespero delas é gritante, porque em seus olhares está um desconcerto, um atordoamento em que eles não entendem do que são culpados para serem alvos. Importante, forte e sensível, vivemos com ela a tensão de uma rotina imprevisível, em que os momentos de respiro são curtos e embalados pela presença de Sama, uma menininha que parece se habituar e não se assustar mais com os barulhos de bombas e tiros.


The Cave

No sudoeste sírio, em Al Ghouta, está outro hospital. A administradora e uma das médicas é a pediatra Amani Ballour e o lugar se chama A Caverna, porque foi a única forma de manter um hospital em uma cidade destruída pelas aeronaves russas – tornando-o subterrâneo.

Amani enfrenta com seus colegas uma resistência que a torna fundamental, é a segunda médica em um dos poucos, que se torna o único, hospital da região. Da mesma forma que em For Sama, aqui também o cerco se fecha e se aproxima cada vez mais deles. Além da luta por salvar vidas, Amani vive situações que deveriam ser impensáveis, não fosse a cultura e a tradição construídas muitas vezes à fórceps e sem raciocínio. Pais de crianças assaltadas por bombas não a querem cuidando de seus filhos ou sequer administrando o hospital – seria dever de homem, mulher não deve trabalhar. Para nós, um absurdo, há que respeitar a cultura e não a defender, mas questioná-la e é isso o que nossa heroína faz, com uma tolerância quase impensada.

Apesar de ter um ponto de vista um pouco distinto de For Sama, cuja câmera é sempre subjetiva e mais autoral, em The Cave é o outro que filma e, mesmo assim, as duas obras imprimem uma possível realidade de todo o país de forma bem próxima: cidades destruídas por um sem número de forças, hospitais bombardeados, cercos e restrição de comida e água, armas químicas e o esgotamento de uma nação por ganância. Os filmes trazem mulheres cuja coragem beira o martírio e que, saber que estão vivas hoje, nos deixa tranquilos ao mesmo tempo em que seguimos tristes, apreensivos e inúteis diante do horror.

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Há outro filme na Netflix sobre os socorristas, civis que não veem outra forma de ajudar em Aleppo, que não atendendo às vítimas destes atentados terroristas: Capacetes Brancos. Levou o Oscar de Melhor Documentário de curta metragem em 2017.

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