Retrato de uma jovem em chamas


Enquanto escrevo, ouço as batidas do sino da igreja aqui de perto. Não seria uma informação de grande relevância se o filme fosse outro, mas este, que levou a Palma de Ouro em 2019 encontra ressonância. Retrato de uma jovem em chamas é uma história de amor e arte em um cruzamento sensível e sofisticado.
Século XVIII, mulheres usam corpetes para afinar a cintura e manter a coluna ereta. Falam baixo e têm diversas habilidades, como um portifólio para o casamento – além do dote e importância familiar. As relações entre sociedade e intimidade se encontram aqui, em que a primeira é como uma ameaça próxima ao mínimo de liberdade e a segunda é o que nos transforma e identifica como indivíduos singulares.


Céline Sciamma é a diretora e quem conhece sua trajetória, espera um filme que traga assuntos como comportamento, sexualidade e gênero. Pauline (2010), Tomboy (2011) e Girlhood (2014) são grandes exemplos desta uma produção consistente e relevante. Os três carregam uma sutileza que fica entre a realidade de assuntos doloridos e a docilidade das ingenuidades da infância e adolescência. São filmes lindos, destes de rever e ter em casa para alguma emergência e boas conversas, especialmente os dois últimos.
No filme deste ano, há menos inocência e mais garra. Marianne (Noémie Merlant) é uma pintora que segue para uma ilha remota com a missão de pintar o quadro de uma noiva. O noivo decidirá, a partir da obra, se esta imagem lhe apetece, se o casamento vai acontecer. A prometida é Heloise (Adéle Haenel), uma jovem atormentada por um passado familiar, cujo reconhecimento de si começará através desta amizade e de outras tantas descobertas. Mas, mais do que um filme sobre um romance, a obra carrega outros significados. É um drama que fala sobre ser mulher em, talvez, todo e qualquer aspecto possível.


Recordo de uma sequência, em particular, com um grupo de mulheres – havia outras pessoas, mulheres isoladas na ilha, além das protagonistas, que se encontram em um descampado e, quase silenciosas, comungam suas relações de amizade, existência, resistência. Elas então cantam, entoam como bruxas ou corpos solidários, uma irmandade de mulheres que se reconhece e encontra ali, uma força inesgotável. Muitas outras imagens são pintadas além desta e das que Marianne produz, como o mito de Orfeu e Eurídice e a brilhante interpretação de seu desfecho, a coragem para nadar, a cenaque remete ao O Sétimo Selo (Bergman, 1957). São momentos comuns de nossas vidas, das vidas de nossas amigas e irmãs, primas, mães. São mulheres que abortam, curam e cuidam. São mulheres que carregam a responsabilidade do mundo sem mérito ou lucro.
O filme é como uma pintura, os traçados, as cores, a fotografia. Os enquadramentos são como retratos, paisagens e natureza morta. É uma ode à pintura como é para o cinema. Não suficiente, a pertinência de um roteiro ambientado em séculos passados e é tão contemporâneo, que só precisaria de um novo figurino para trazer à nossa época. Seus assuntos, tão urgentes antes quanto o são agora, nos deixam entre a lembrança pesarosa de nosso retrocesso social e a esperança de ver que se pensa e se faz cinema como arte, entretenimento, sensibilidade e informação. Não é à toa que ganha prêmios por onde passa e que a carência de homens nesta história não é percebida como perda, mas mais importante, como significado.


*Links: crítica de Tomboy e o curta, Pauline, completo no youtube.

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