Parasita

by - janeiro 19, 2020


Ontem passei pela porta do cinema e vi que a sessão de Parasita (2019, Bong Joon Ho) estava esgotada. Vi o filme ano passado, em novembro e o impacto em mim foi suficiente para querer revê-lo e não tirar da cabeça. Não bastou Cannes; a nomeação para o Oscar alavancou novamente o público e essa insistência é mais do que justificada. Que se lotem as salas, o filme é fundamental.

Três filmes marcaram o cinema nos últimos anos, Moonlight (2016, Barry Jenkins), Roma (2018, Alfonso Cuarón) e agora, Parasita. Os três abordam questões sociais, cada um à sua maneira, de forma que nos sentimos imersos, mergulhamos em suas histórias e saímos dali outros, mudados, diferentes. Moonlight é uma obra de arte, um filme americano que fugiu do padrão e levou o Oscar para casa em um momento um pouco mais político para a Academia. Foi o ano em que vimos La la land (2016, Damien Chazelle) concorrendo na mesma categoria, filmes tão díspares, com vertentes quase opostas e que se encontraram neste momento final. Moonlight foi cinema, comunicação, arte e engajamento em uma história de amor e sobrevivência. La la land era uma história de amor regular que trazia referências do clássico cinema estadunidense. Fez bonitinho, e só.


Roma é um filme para ver sem pressa. É importante frisar que é um filme de arte na Netflix. Não é uma produção 'fast food', na melhor acepção do termo: gostosa e de rápido consumo. É um filme que trata de um período importante do México, sob a perspectiva de uma casa em Roma, bairro de classe média da capital federal nos anos 60. A década que carregou transformações nos dois hemisférios, como um vírus, mas necessário. Naquela casa, como no Brasil e em muitos outros países, a empregada ‘faz parte da família’ desde que não coma com os patrões, durma no quarto dos fundos e não tenha vida social. Uma jovem empregada doméstica lida com a diferença, vindo de uma cidade menor, com uma cultura específica e, por isso, tratada como qualquer outra coisa  carinhosamente. Cuarón acerta em cheio e encontramos similaridades e ressonâncias em toda casa que já teve empregada. No Brasil, lembremos dos últimos a tratar do assunto: Casa Grande (2014, Fellipe Barbosa), Que horas ela volta? (2015, Anna Muylaert) e Domingo (2018, Clara Linhart e Fellipe Barbosa).


        E agora, chega Parasita. Do outro lado do hemisfério, supostamente uma cultura completamente distinta à nossa e então, igual. Quando eu estudava cinema, um professor disse algo que nunca esqueci: para atingir o mundo, produza localmente. Não era bem isso, mas a ideia era de que precisávamos nos entender primeiro e produzir o que nos é conhecido, o que está em nós e se reflete em nós, porque é isso o que nos faz humanos e, portanto, universais. Essa ideia de local-global ficou em mim, porque ela é o espelho do mundo, por mais diferentes que sejamos nas entrelinhas e geografias. E então, Bong Joon Ho retoma o tema de classe e vida doméstica na Coréia do Sul, que acontece de se parecer muito com qualquer residência de classe média alta. Uma família habita uma casa grande em um bairro rico e precisa de suporte, empregados de toda ordem para se manter funcionando. Em paralelo, uma família pobre, morando em um bairro de subúrbio, precisa sobreviver, pagar suas contas e garantir, literalmente, o mínimo. Nenhuma surpresa, nenhuma novidade. Entretanto, quem assistiu Mother (Madeo, 2009, Bong Joon Ho), sabe que o diretor tem muito o que contar.   


Com uma oportunidade para ajudar a família, o filho mais velho é chamado para dar aulas de inglês à filha mais velha na casa grande. Ao mesmo tempo, encontra ali uma chance de trabalho para a irmã, como professora de artes do filho menor. Em pouco tempo, a família pobre abarca todas as funções da casa, aproveitando qualquer motivo para alavancarem sua situação. Ou: a família rica não consegue viver sem o conforto de empregados diversos: motorista, governanta/empregada doméstica, professor de inglês, professora de arte. Há uma necessidade de manter status e organização em uma casa vazia e rica, onde o supérfluo é a rotina. Como o estereótipo parece o excesso à regra, mas não  exceção, esta família representa a futilidade e o total descaso pelo outro; o tratamento íntimo, como 'família', é uma fachada para o distanciamento mútuo, onde cada um sabe o que lhe cabe. Esse filme atinge, portanto, a todos como uma chuva forte que limpa o ar, deixa os abastados felizes com a calma da água que tudo acalma e assola os pobres com inundações, prejuízos e riscos de vida. O importante é trabalhar no dia seguinte, pontualmente.


O Festival de Cannes tenta manter uma heterogenia na escolha de seus jurados e presidentes de júri e isso tem garantido uma seleção internacional de qualidade. Para além das festas e vestidos, os filmes que concorrem à Palma de Ouro costumam valer os ingressos. Então, Parasita levou a Palma esse ano e sabemos que a concorrência (BacurauRetrato de uma jovem em chamas entre outrosnão foi fácil. Além do roteiro brilhante, duro e sarcástico e de um jogo de cena impressionante com grandes atuações, o filme é genial em cinematografia. Enquadramentos que nos colocam na cena como pontos de vistas dos personagens, o aproveitamento das locações – a casa pobre em contraponto à rica e o uso dos espaços sob camadas nos prendem à história que se desenrola sem percebermos. Os tons sombrios se aproximam à medida que a trama avança e nos vemos atados, sem piscar, com um turbilhão de informações, críticas e percepções que vão se construindo em nós – tudo ao mesmo tempo. É como um soco no estômago que tomamos sem perceber e agradecemos, mesmo sentindo dor. Não será estranho sair desse filme sem saber direito o que lhe atingiu e um tanto sem fala, mas impressionados e com vontade de entrar na sala de cinema mais uma vez.

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1 comentários

  1. Vi que você tinha escrito uma crítica de Parasita e tive que ler na hora!!! Ainda mais porque esse eu consegui ver. Já tínhamos conversado rapidamente sobre como Parasita é excelente mas, ler com calma sua visão e refletir sempre me abre os olhos para elementos que eu não havia reparado e diálogos com outros filmes... Obrigada por mais uma crítica incrível.

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