Right now, wrong then*

by - outubro 04, 2015

A graça de ir a um festival de cinema é conhecer diretores e filmes que não chegariam a você de outra forma. Claro, hoje existe a internet e seu arsenal infinito de possibilidades, mas se não investigar nos sites dos festivais, nos blogs e revistas de quem estuda e escreve sobre o assunto, acabamos num limbo de inúmeros nomes, países, cinematografias e nenhum guia para se orientar.

Este ano, o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro traz uma mostra de Grandes Mestres. Dentre estes, está Hong Sang-soo, diretor sul coreano de A Visitante Francesa (2012), Ha Ha Ha (2010), entre outros. Para a minha sorte ou azar, não conhecia nada dele, nem mesmo estes citados e mais conhecidos e fui ver o mais recente, Right now, wrong then (2015), que já visitou os festivais de Toronto e Locarno. O diretor é um dos queridinhos dos festivais internacionais e por onde passa, causa um alvoroço do quilate de Woody Allen, Polanski ou Almodóvar.
O filme conta a história do encontro do diretor de cinema Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong), que visita uma cidade para exibir seu filme e comentá-lo, com uma pintora, Yoon Hee-jeong (Min-hee Kim), que cruza seu caminho. Passam um dia juntos em uma conversa que vai criando intimidade entre eles, até seu desfecho. E aí, acontece toda a graça, quando as sequências se repetem, como em Feitiço do Tempo (1993, Harold Ramis) e não só vemos a transformação dos protagonistas, como suas mudanças de atitudes que convergem para um novo destino. Esse jogo narrativo é tão divertido quanto conciso e nós, por não termos amplo conhecimento da dramaturgia e cinematografia sul coreanas, somos pegos desprevenidos no jogo de cena. É muito divertido perceber as sutilezas entre as sequências – enquanto no filme americano elas são mais óbvias pelo número de repetições, aqui as variações quase passam despercebidas, a começar pelos títulos. Somos convocados para um jogo que se aprofunda e nos deixa pensando em nossas atitudes quando em novos encontros. Quem estamos mostrando para o outro? Somos nós ou uma versão mais ou menos agradável a depender do recebemos em troca?

O cinema estava cheio e se dividia entre silêncio e algumas gargalhadas, especialmente de dois vizinhos meus. Acabei sendo contagiada pelo riso deles, o filme saiu delicioso e me vi gargalhando junto. As interpretações dos atores parece estranha, especialmente no personagem do diretor, Ham. É algo como uma caricatura de um homem que encontra uma bela mulher e não sabe como reagir a ela nas duas sequências. Os exageros se traduzem tanto como a inocência, inibição frente a uma paixão recém-descoberta, quanto em um sentido de comédia quando tenta seduzi-la, em falas entrecortadas com expressões que nos parecem mais insegurança do que conquista. Já a pintora Min se equilibra entre uma personagem tímida, ingênua e, ao mesmo tempo, observadora, tentando entender com questionamentos diretos, qual a densidade de seu parceiro.
Acompanhando a crítica oficial de Locarno e Toronto, o que se confirma nesse filme é um cinema de autor, que repete as fórmulas com um adendo de inovação e criatividade narrativas, como em Woody Allen ou qualquer grande mestre. Alguma coisa na cinematografia, nos planos escolhidos – à exceção talvez do zoom, que não se vê tanto em comédias românticas – remete ao cinema francês, mais leve e sutil, deixando a cargo dos atores a ação, ao invés de fragmentá-la em uma montagem mais frenética. O fato é que esta inusitada e estranha surpresa nos resgata das histórias tragicômicas de nossos próprios quase relacionamentos para este novo, com cara de romance de um tempo que não existe mais.  Agora é correr para tentar ver o outro filme do diretor que está no Festival, A Montanha da Liberdade (2014). É, sem dúvida, um bom e divertido início para a maratona cinematográfica deste ano.

*Esta crítica está no Blah Cultural! :)

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