Uma pesquisa recente diz que checamos nossos telefones em
média 100 vezes por dia.
Todos os dias ela acorda com o despertador do telefone. No tato, silencia o aparelho. Minutos depois, pega os óculos e checa o que pode haver mudado em menos de oito horas, porque sua noite não chega a tanto. Passa o dia com o aparelho por perto, recebe recados, tenta atender a todos. Trabalha em um computador e se divide entre tarefas longe dele, o celular, o telefone do trabalho. Em casa, vê televisão, programa o despertador, lê um pouco – quando ‘dá tempo’ – checa o aparelho pela última vez. Conversa com alguém e dorme. São sempre pessoas reais, ela se defende. Mas não há uma sequer, a seu lado. Dorme afogada em travesseiros.
Em Her, Theodore é um homem que mora sozinho e quase não tem vida
social, exceto por um casal de vizinhos que visita ocasionalmente. É redator
numa empresa que recebe encomendas para escrever cartas pessoais, de amor.
Separado da mulher, seus dias funcionam ao redor de máquinas: celular,
computador, videogame. Até que ele conhece Samantha, um sistema operacional novo
que promete organizar sua vida virtual e acaba fazendo muito mais do que isso.
Nessa correria tecnológica, ela quase não tem tempo pra si, mas isso também parece mudar. Uma desconexão lenta e gradual parece acontecer com o cansaço das redes sociais, os mesmos assuntos, as mesmas pessoas, mesmas publicações. É tudo o mesmo, as diferenças e novidades do início de carreira no mundo virtual se foram. Hoje se conversa sobre o dia a dia, mantendo uma atualização dispensável e frívola. Voltou a ler, a correr, a tentar falar menos (e menos de si) nesses aparelhos e mais ao vivo, a cores e sobre outros assuntos. Theodore fez o caminho inverso. Ao se deparar com um tédio, a velha preguiça de quem é solteiro e tem por obrigação sair, conhecer pessoas, ter experiências para então não ser mais solteiro ou se divertir como um inveterado, encontra em casa um refúgio e agora uma companhia: o software que conversa com você numa voz humana, feminina e sensual e que parece fabricar para si sentimentos em códigos binários a partir de cada nova conversa e atualização.
Spike Jonze busca em seus filmes
uma estrutura dramática que, não importa a história, está sempre trabalhando
pessoas complicadas em situações que mexem com nosso imaginário – basta lembrar
Quero ser John Malkovich e Onde vivem os monstros. Aqui não é
diferente: ouvimos a voz sensual de Scarlet Johansson e a fragilidade de um
homem sensível e sozinho que, apenas no olhar, notamos em Joaquin Phoenix. Os dois personagens evoluem quando estreitam seu relacionamento. Samantha se humaniza a partir das necessidades de Theodore: uma das perguntas-chave do início do filme é sobre seu relacionamento com a mãe e quando ensaia uma resposta, é cortado pelo sistema que se reinicia sob a voz feminina, sexy e até maternal de nossa personagem. Scarlet é apenas voz e ainda assim - por sua reconhecida imagem de símbolo sexual é impossível confundi-la - imprime toda a carga de uma personagem física, com crescente formatação de sentimentos e alterações - atualizações de si mesma à medida que a história avança. Já Theodore cresce ao redor dela: enquanto Samantha nutre suas carências afetivas e lhe faz companhia como nenhuma pessoa conseguiria, o protagonista passa a se relacionar melhor com as pessoas próximas, mas firmado numa segurança que lhe parece real e, por isso, seus amigos aceitam.
O filme fala sobre solidão no fim das contas e de como buscamos, agora que um chat vale mais do que um abraço, uma resposta imediata para nossos anseios e angústias. Com isso, criamos nestas pessoas virtuais sentimentos verdadeiros plantados em ilusões, em um conforto pela distância e também por ela, uma intimidade que seria conquistada com mais tempo em uma experiência ‘física’. Esse paradoxo é a marca maior do filme e reforça a transformação das relações sociais agora que precisamos das redes para nos comunicar.
O filme fala sobre solidão no fim das contas e de como buscamos, agora que um chat vale mais do que um abraço, uma resposta imediata para nossos anseios e angústias. Com isso, criamos nestas pessoas virtuais sentimentos verdadeiros plantados em ilusões, em um conforto pela distância e também por ela, uma intimidade que seria conquistada com mais tempo em uma experiência ‘física’. Esse paradoxo é a marca maior do filme e reforça a transformação das relações sociais agora que precisamos das redes para nos comunicar.
É difícil sair dessa falsa zona
de conforto que a internet formou em nós. Agora há uma necessidade de se fazer
feliz virtualmente, de se mostrar bem, sempre presente e atualizado. Como se toda a nossa vida fosse interessante o tempo
inteiro e neste mesmo instante devêssemos dividi-la com os nossos 700 amigos. Assim,
qualquer pessoa que utilize minimamente estas redes provavelmente não
passará incólume ao filme. O diretor leva o caso ao extremo, a hipérbole do
relacionamento com uma máquina nada mais é do que uma grande sacada – além de
um tapa na cara – para nos trazer à realidade. Hoje não se usa mais o telefone
para fazer ligações. Estas voltaram a ser raras não por seu custo, mas porque
nos aproximam mais da realidade, de alguma forma ganharam um misto de invasão,
incômodo e intimidade. Assim, usamos a troca de mensagens instantâneas para
qualquer situação, salvo para falar com nossos pais. Além de trabalhar com a
internet, fazemos todo o resto, como lembra muito bem Medianeras. Compras, envio de currículos, rede social de amizades,
de trabalho, de relacionamento, de jogos. Perdemos um tempo razoável publicando
notícias sobre nós mesmos. Vamos a exposições para fazer check-in, a menos que seja proibido fotografá-las, aí somos
obrigados a parar para ver. A ansiedade em compartilhar é
tão urgente que não conseguimos prestar atenção no que está diante de nós e publicamos
fotos de costas para o que fomos conhecer, porque na verdade, o objetivo é só
dizer que estava lá. É como ler a orelha do livro e dizer que conhece a
história, rezando para que não te perguntem nada. O que importa é estar por dentro.
Agora ela pensa em como pode ter 700 amigos e ainda se sentir sozinha de vez em quando.
Diariamente fala com no máximo 7 deles e mesmo assim, não muito. Chega a ser
assustador pensar que há 700 pessoas olhando seus movimentos, recados, fotos
engraçadas. Ao mesmo tempo, acha inusitado que vejam o que escreve, não é uma
pessoa desinteressante, acredita. É mais uma mistura de narcisismo e carência,
mas sabe que seu caso não é dos mais graves e sabe que dentre estes 700, há
aqueles que não ficam um dia sem acessar a vida virtual, sem atualizar, ainda
que só queiram uma resposta para um ‘bom dia’, por falta de assunto.
O clímax do filme nos faz pensar em como são os relacionamentos a distância, como criamos neles uma dependência com nossas expectativas sempre frustradas e porque os evitamos - ou insistimos em manter. Eles são uma versão do que está na tela, numa montagem crescente e íntima - com uma trilha sonora delicada que nos acalenta sem percebermos - em que vemos Theodore mais feliz, melhorando como pessoa, mas seguindo por um caminho torto e sem saída, a menos que estejamos numa rara ficção científica otimista. E, se passamos o filme com pena de nosso herói em sua jornada a um provável fracasso, quanto tempo demoramos a abrir um chat com alguém, mandar uma mensagem, publicar sobre o filme, tirar uma foto assim que saímos dele?
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