Meia noite em Paris

julho 03, 2011


Quando não conhecemos um lugar, costumamos viajar por ele através das impressões dos outros. Impressões vendidas por companhias de turismo, dadas com emoção por parentes e amigos que lá estiveram, por filmes, músicas, fotos, postais, internet. Essa coleção de imagens e sons é comum e acessível a todos. É gratuita e nos permite interpretar aquilo que não conhecemos, mas que temos alguma(s) idéia(s) de como deva ser. E, enquanto não vamos lá, aprendemos daqui a perceber como seria aquela vivência, ilusão farta e romântica de um espaço, de um momento.

Meia noite em Paris trata da viagem de um casal americano junto com os pais da noiva à cidade. O noivo, Gil Pender (Owen Wilson) encantado com a capital francesa e se aproveitando dela para ganhar força e coragem para mudar sua profissão lucrativa de roteirista hollywoodiano, tornando-se um escritor de primeira viagem, entra em conflito com os anseios da noiva Inez (Rachel McAdams), que pensa na decoração da nova casa e em passeios com um casal de amigos não tão divertidos que encontrou pelo caminho. Insatisfeitos com a discrepância dos anseios individuais, o casal se separa nas noites parisienses e vaga pela cidade, cada um à sua maneira. A cada novo dia, as diferenças entre eles se tornam mais evidentes e novas descobertas os fazem rever o casamento.

Esta é uma sinopse alargada do novo filme de Woody Allen. Ao contrário dos anteriores, este não começa com uma narração. Na verdade, o filme prescinde totalmente daquele narrador, da voz que já conhecemos, presente em grande parte de sua filmografia. A história se deixa contar à medida que nosso herói vivencia a cidade e por ela se apaixona, a cada quadra, a cada esquina. Romântico, acredita que seria mais feliz em outra época, de outra forma. Esse pensamento nos transporta pelas ruas de Paris a outras décadas e todos  vivemos uma experiência inusitada.

O filme mantém o estilo leve, a narrativa fluida, a suspeita simplicidade no contar da história. Com mais de vinte filmes no currículo do diretor, não poderia ser diferente. Aqui há atores de peso – com destaque para o incrível Adrien Brody e Corey Stoll – e até Carla Bruni dá o ar da graça em momentos divertidos da história. Ainda que não soubéssemos quem havia dirigido, ficava fácil perceber a quem pertence o tom do filme. Não há um neurótico assumido, mas um homem confuso, perdido entre suas decisões, ingênuo e descobrindo o que quer e precisa, como alguém que chegou agora ao mundo. Há uma tranqüilidade no personagem de Owen Wilson e nos diálogos incríveis com o amigo pseudo-intelectual de Inez, que nos fazem gargalhar.

A surpresa do protagonista diante do inusitado – também para mim que não li nada sobre o filme, apenas vi o trailer – nos faz entrar imediatamente na história, quase como o herói de A Rosa Púrpura do Cairo, só que de forma invertida. Aliás, a primeira grande diferença deste novo filme para os demais não é tanto a ausência de voz off, mas as primeiras cenas, lindas, das pequenas ruas estreitas, de paralelepípedos, com cafés e restaurantes e uma trilha de fundo, nos indicando: é Paris, nada mais importa.

Com mais imagens deliciosas de uma cidade ainda desconhecida, a ansiedade me tomou o coração com um imperativo de ‘você precisa viver isso’. Este filme aparentemente simples – como todos os outros de Woody Allen aparentemente são – traz questionamentos de forma sutil sobre o tempo que vivemos, o tempo que queremos viver e se o que estamos fazendo agora é viver o que queremos ou se estamos sempre pensando no que queremos viver. As respostas suscitam outras questões e provavelmente não teremos uma solução que não signifique novas decisões e atitudes. E tudo pode se passar num domingo qualquer com uma boa companhia e que não se pense mais a respeito ou, como um bicho que nos morde, pode ficar uma marquinha, uma manifestação pequena e incômoda do que realmente precisamos fazer e que não conseguiremos esquecer.

Título original: Midnight in Paris
2011 / 94 min
Diretor: Woody Allen

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2 Comments

  1. O filme e mesmo uma delicia do comeco ao fim... E que comeco! Uma nova viagem a Paris na primavera, com suas arvores frondozas e luzes e mais luzes. Parece mesmo "A Rosa...", lembrei demais. So quem esta diferente e Woody roteirista e diretor. Mais singelo, mais tranquilo... Parece que a Europa fez bem a ele tanto que ele resolveu duplicar a experiencia. Por mim ele pode repetir essa viagem todos os anos!

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  2. Ei, Tati!

    Realmente o filme nos traz questionamentos a respeito do tempo, conforme você cita no último parágrafo. E uma outra coisa que o filme suscita é que nunca estamos satisfeitos com o presente, pelo menos algumas pessoas. O incômodo nos faz querer sempre algo a mais. Algumas vezes a realidade dura do presente nos faz querer que ele passe logo e aí nos transportamos para o passado ou para um futuro que desejamos que aconteça. Isso nos conforta de alguma forma, porém não podemos esquecer que é no presente que nos cabe traçarmos o caminho daquilo que virá.

    Bjo e melhoras nas bicheiras!

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