Rabbit Hole

by - maio 17, 2011

Se Tarkovski diz em certo sentido, o passado é muito mais real, ou de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se esvai como areia entre os dedos, adquirindo peso material somente através da recordação, é justamente deste peso e de como lidar com a recordação que trata Rabbit Hole ou ridiculamente em português Reencontrando a Felicidade.

Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) formam um casal que perdeu há oito meses o filho de poucos anos num acidente. Eles, ao contrário de estar reencontrando a felicidade – como assim definiu o título em português alguém que não entendeu o filme – buscam apenas conseguir conviver com a realidade, com o presente, lidando com um passado ao mesmo tempo feliz e triste.

Enquanto o pai tenta se apegar às recordações tentando reviver momentos com o filho em filmes gravados no celular, reclama da ausência de fotos na casa e vai à terapia de grupo na esperança de se reerguer, a mãe prefere transformar o presente, arrumando a casa, guardando e doando o que não vai mais ter uso, como as roupas e brinquedos do filho. O interessante é perceber que o tratamento da perda aqui é individual. Apesar de todos viverem uma dor compartilhada, as manifestações são particulares e é esse o ponto forte do filme.

Rabbit Hole refere-se aos buracos de coelho, parte de uma teoria sobre universos paralelos em que através deles conseguimos atravessar deste para outros universos onde seria possível viver versões de nós. Daí  vem a própria construção do poster, onde vemos frações de uma mesma pessoa. A explicação quem nos dá é um adolescente que está criando uma história em quadrinhos com esse tema. Becca o encontra e começa a ler um livro sobre o assunto. Para ela, é interessante pensar que em algum lugar, ainda que em outro universo, ela está se divertindo. Sem falar que a expressão rabbit hole nos remete a outras obras que se valem desta teoria, onde os mais óbvios são Alice no País das Maravilhas, Matrix e um pouco mais distante, A Origem. A teoria dos universos paralelos sempre esteve nos filmes, enriquecendo e tornando mais complexas as tramas. Especialmente em filmes de ficção científica. Mas aqui, funciona como um caminho para se pensar alternativas. Não tanto em relação à dor, mas como uma forma de olhar diferente o que se está vivendo, tornar suportável.

Com toda a carga trágica do filme, este não é um melodrama. A postura dos atores, a forma como foram dirigidos deixa claro que o objetivo é muito mais a sinceridade do que a pungência.  Este resultado é fruto da construção dos personagens e a de Nicole Kidman merece atenção. Ela nos prende com o menor dos movimentos, acreditamos nela apenas com o olhar, com uma frase, num personagem complexo e fantástico. Ao mesmo tempo, vemos um Aaron Eckhart crescendo. Ele ainda não tem a presença de um protagonista, mas seu desenvolvimento é notável, especialmente quando nos lembramos dele como o Duas Caras de Batman e agora nesse drama quase real. Há ainda personagens secundários, alguns descartáveis e outros marcantes como o de Dianne Wiest, que faz a mãe de Becca, uma mulher que também sofreu perdas e ajuda a filha dentro do limite que lhe foi imposto.

As construções de contexto também se tornam elementos chave. A fotografia mantém uma aura de passado, especialmente na residência do casal. Tons monocromáticos em gradações distintas, de figurino e iluminação, a fotografia em si, com um filtro de textura quase palpável e enquadramentos nos olhares, focos nas expressões e momentos de silêncio são a chave. Filmes silenciosos devem ser difíceis de fazer. Construir a cena na expressão e nos enquadramentos exige não só preparo, mas refinamento dos atores e do diretor. Talvez aqui tenha sido menos difícil ao se tratar de uma adaptação de uma peça e, já tendo sido montada, ficou mais fácil perceber os momentos onde – e aí vai um clichê – menos é mais.

Não é um filme leve. É um filme que fala sobre perda de alguém fundamental. Ao mesmo tempo, é um filme real, possível. O que vemos na tela é muito parecido com o que vivemos em algum momento e isso é doído, mas, ao mesmo tempo, conseguimos ultrapassar os apertos e perceber que não é só disso que trata o filme, mas de amor e de relacionamentos. Numa sessão cheia, conseguimos ainda gargalhar e se solidarizar, em conjunto, com o que víamos na tela.

Trailer aqui.

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