Desesperos cotidianos

by - novembro 26, 2008

Se você um dia pensar em morar sozinho, provavelmente enfrentará os três momentos desesperadores, sintetizados como Surgimentos Inexplicáveis.

  1. Você costuma manter a casa limpa e razoavelmente arrumada e, do nada, surge uma barata gigantesca no banheiro. O ralo do chuveiro está fechado. O ralo menor que fica perto da privada também. A pergunta é: de onde a infame surgiu? Por mais que você tente descobrir isso, é importante não perdê-la de vista e eliminá-la prontamente. Ela pode resistir a vazamento radioativo, mas perde para o baygon. Se o medo surgir em seu coração e você resolver chamar o porteiro, duas coisas podem acontecer:
    a) o porteiro encontrará a barata, matará e te deixará feliz para sempre, agradecendo a ele horrores e pensando em lhe comprar um presente;
    b) o porteiro não encontrará a barata, o que significa um aumento substancial do seu desespero, um agradecimento sem graça ao porteiro e o olhar dele pra você de 'se lenhou'. O baygon ainda é a melhor opção se você é como eu, incapaz de matar/acertar a infame com sandália, sapato, bota, revista ou xampu.

  1. Em mais uma tarde de estudos, você resolve fazer café. Esquenta a água... faz o café. Senta-se para continuar a leitura e, cinco exatos minutos depois, um cheiro de gás inunda a sala. Você, achando muito surreal que o cheiro venha do fogão, já que você acabou de utilizá-lo, vai ao aquecedor. Nada acontece. Vai à cozinha e lá está o cheiro brutal do gás. Enquanto você acaba de pensar: ela deixou a saída do gás aberta. Não: um surgimento inexplicável de uma brecha antes da torneira do gás (aquele dispositivo que fica entre a tubulação que sai da parede e a mangueira) criou o vazamento e eu ia morrer envenenada/queimada. Liguei para a dona do apartamento, que me enviou o encanador-pedreiro-bombeiro-pintor, que resolveu mais um problema do além.

  1. Você chega em casa depois da aula, vai ao banheiro fazer xixi (notem: xixi), dá descarga e continua os processos de chegar em casa etc e tal. Na manhã seguinte, percebe que a água está ainda amarelada e dá descarga mais uma vez. A água sobe... e não desce. O desespero toma seu coração e você simplesmente finge que não é com você, que a privada de repente está com preguiça e que vai descer a água em algum momento. Vai fazer uma coisa ou outra e volta. A água está lá. Um surgimento inexplicável de entupimento de privada assolará sua tarde para sempre. Você pensa em todas as coisas nojentas que estão contidas neste entupimento e pega a coisa mais nojenta existente além da privada entupida (e da barata): a escovinha da privada. Mexe e remexe na água agora com outros tons e descobre que não adiantou nada e que resultou apenas no aumento do nojo que você sente e a certeza de que jamais olhará para aquela privada como da primeira vez.

Neste momento acabo meus tormentos cotidianos. Descobri, depois de uma investigação que a solução será coca cola ou a soda cáustica com água fervente, utilizando luvas e lenços e trezentas formas de proteção para não morrer queimada/intoxicada. Vou buscar os equipamentos na rua e um dia contarei o fim de mais um dia comum de situações surreais. Uma coisa é certa: quando você resolve morar sozinha, até pensa nessas possibilidades... mas pensa nelas lá... bem longe de você... e, de preferência que se vierem a acontecer, será uma vez na vida... e não todas no mesmo mês.

You May Also Like

3 comentários