As aventuras da mulher independente: Equinócio


Saí da casa do rapaz e parei nas lojas americanas, a caminho do metrô para casa. Era fim da manhã de um feriado e dessas noites de improviso, quando desejamos ser um pouco mais do que nosso dia a dia permite.

Três calcinhas de algodão, uma ampola de hidratação para o cabelo, um pacote de amendoim japonês e o para sempre aguardado liquidificador. Com jarra de vidro e base de inox. Surpreendentemente barato e até agora já foram duas palavras imensas de escrever.

A noite foi divertida e terminou conforme o esperado, justificando a escova de dente na bolsa pequena. Mas, como já aconteceu outras vezes com o rapaz, foi uma noite eventual, um reencontro animado como o bloco de carnaval que nos atravessou à noite, um equinócio. A intimidade é muita para os anos de interlúdio e amizade colorida, e nenhuma ao mesmo tempo, já que não somos frequentes no cotidiano. Deixamos a casa, ele para a bicicleta e eu para o liquidificador — como se aquele monte de confidências de horas antes estivesse arquivada para a próxima estação ou descartada, como a embalagem do queijo minas que comemos no café da manhã. Não como queijo sempre, seria mais uma exceção daquele momento, já que ainda vinha com torradas, tomate cereja e café preto. Tudo era novidade e repetição.

Cheguei em casa estranha, mas feliz, com o liquidificador de base inox e jarra de vidro, três calcinhas de algodão para lavar, o amendoim japonês para alguma visita e uma renovação capilar aguardando o próximo banho. A sensação estranha se diluiu durante as horas e terminou em um encontro de amigos no boteco de sempre.

Ainda não sei se espero o próximo equinócio, se me interessa essa vida de intervalos curtos e intensos — o clichê do palito de fósforo. O queijo, entretanto, ficou na lembrança e comprei um pedaço da mesma marca no supermercado. Pequeno, só para sentir o gosto bom e não deixar o inevitável enjoo de horas.

*Imagem de Cinzia Bolognesi
*publicado originalmente no Medium, em 2017.

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