Rio de esgoto

foto de Betinho Casas Novas / Estadão Conteúdo
A cidade teve uma noite de pesadelo ontem. Ganhou em todos os milímetros de água, uma dessas chuvas atípicas que nunca foram raras, só menos frequentes. Chuva de março, desígnios de Deus, punição pelas eleições — as velhas escolhas — erradas. O fato é que choveu demais pela segunda vez na capital fluminense em dois meses e, pela segunda vez, a cidade sucumbiu.

Como sucumbiu, se desfez, caiu pela quarta vez a maldita ciclovia Tim Maia. Coitado do cantor, que batizou sem nem saber, uma obra superfaturada que nunca funcionou e matou gente. A ciclovia que atrapalha a vista pro mar, que tem nas encostas da avenida Niemeyer uma das imagens mais impressionantes da cidade, nunca serviu pra nada. Estragou uma paisagem que em dia de ressaca é mais do que qualquer poesia. Uma via que faz andar de ônibus valer a pena, porque você vê de mais alto as ondas lambendo as pedras, sensual e sensorial como já disse uma vez.

Essa obra poderia ser o retrato da cidade. Essa obra agora fadada ao esquecimento e ruína, porque desistiram finalmente de lhe reconstruir mais uma vez — não é redundância. De remendar com band-aid o que precisaria de 80 pontos. Ou tiros.

Sim, porque a segunda-feira não foi fácil. Ontem, além das chuvas, soubemos que doze militares cercaram um carro de passeio no domingo e tentaram assassinar uma família negra em um bairro pobre. O pai morreu. Os soldados riam enquanto atiravam. O presidente apaixonado por militares e armas não se pronunciou. O prefeito, o governador — nada. Pensando assim, parece vingança esse monte de água caindo do céu por essa sequência de más escolhas do pessoal dessa terra. Da maior parte, claro — há gente boa na minoria dos votos.

O problema — um deles — é que tudo se confunde em discurso e imagem. É ver o repórter comentando sobre o lixo que desce da Rocinha e para na rua. Ele diz que precisamos ter consciência, saber onde jogar o lixo. Eu me perguntei, porque realmente não sei, se há coleta de lixo lá pra cima. Pedir consciência e higiene no asfalto onde passa caminhão me parece fácil. E de novo, o repórter não está de todo errado, só não lhe ocorreu pensar um pouco mais, no amplo espectro. As chuvas assolaram a Zona Sul e a Barra, zonas de dinheiro da cidade, onde a classe média e alta se concentra. O alarde e desespero foram ao nível everéstico, mas e as tragédias cotidianas e esquecidas da ‘zona oeste profunda’, como diz um amigo — e da zona norte? Choveu um pouco menos, mas sempre alaga como alagou, sempre mata como matou. Pessoas também usaram barcos no asfalto.

Em fevereiro foram seis mortos. Agora em abril, dez. O prefeito diz, culpado, que não foram prudentes, não executaram as medidas para sanar ou prevenir a repetição do começo do ano. Não entendeu que um raio cai duas vezes no mesmo lugar. Ou dez. Discursos como esse se repetem à exaustão, como a desculpa de que ‘nunca choveu forte assim’. Ninguém se lembra dos cortes de verbas de conservação da cidade lá em 2017. Pois é, teve outra chuva atípica naquele ano.
Parece que os cariocas cansaram, nós, os retirantes, também. O prefeito pede fé inteligente, e isso intriga, a junção das palavras. Fé inteligente em sua gestão é um paradoxo. Vale até citar toda a fala da matéria, foi realmente brilhante:

- Peço para todos sermos prudentes. Termos uma fé inteligente. Em época de chuva, de temporal, não vamos andar na beira de morros e onde tocam sirenes, não vamos construir casas em talvegues, não vamos botar a mão em postes, nem vamos a praia quando tiver trovão.

Se o problema do Rio fosse só a chuva catástrofe de ontem, estaríamos bem ferrados, mas talvez mais pacientes e esperançosos. Mas, foram dez mortos à toa entre ontem e hoje. Foi mais um negro fuzilado à toa na cidade, ao escárnio e crueldade de militares. Parece que foi engano, disseram por aí. Como se mata alguém com oitenta tiros, desarmado, em frente à população e à família da vítima, rindo… por engano? O assassinato foi cruel e ele sozinho já desesperaria qualquer humano que assim se definisse. As chuvas foram um adendo, um negrito em um texto quase apagado de tão copiado por aí: a cidade está entregue, acabada, esquecida. Vale adicionar que está violenta como sempre, assassina como nunca e triste. Porque é esse o sentimento. Estamos no esgoto das belas paisagens recortadas por lindos morros com a praia ao fundo e a vista pro Cristo e Pão de Açúcar. Mas não esqueçamos: estamos no esgoto.

As aventuras da mulher independente: Flores



Essa mulher independente e livre não para. Não sobra tempo, abundam ideias sobre tudo: projetos legais, textos, trabalho, caminhada, amigos, álcool, viagens e muito café. Ainda assim, sobraram uns minutos para um dever de casa, que era esse desafio de vida, escrever uma poesia. Pensou um pouco, leu um livro e saiu esse texto curtinho. Não vai embora ainda, dá uma chance pra moça:

Uma mulher livre nunca ganhou flores.
Achou que pedir seria um absurdo.
Mas sempre as quis.

Uma mulher livre ganhou flores da mãe, do pai, da amiga.
Nunca do rapaz.
Porque rapazes não dão flores.

Rapazes dão trabalho.
Uma mulher livre trabalha demais.
Preferiu plantar uma pimenteira.

Uma mulher livre com uma pimenteira foi ao mercado.
Encontrou sementes de flores perto das frutas.
Vai plantar no fim de semana.



*Foto de Chris Barbalis.

As aventuras da mulher independente: Equinócio


Saí da casa do rapaz e parei nas lojas americanas, a caminho do metrô para casa. Era fim da manhã de um feriado e dessas noites de improviso, quando desejamos ser um pouco mais do que nosso dia a dia permite.

Três calcinhas de algodão, uma ampola de hidratação para o cabelo, um pacote de amendoim japonês e o para sempre aguardado liquidificador. Com jarra de vidro e base de inox. Surpreendentemente barato e até agora já foram duas palavras imensas de escrever.

A noite foi divertida e terminou conforme o esperado, justificando a escova de dente na bolsa pequena. Mas, como já aconteceu outras vezes com o rapaz, foi uma noite eventual, um reencontro animado como o bloco de carnaval que nos atravessou à noite, um equinócio. A intimidade é muita para os anos de interlúdio e amizade colorida, e nenhuma ao mesmo tempo, já que não somos frequentes no cotidiano. Deixamos a casa, ele para a bicicleta e eu para o liquidificador — como se aquele monte de confidências de horas antes estivesse arquivada para a próxima estação ou descartada, como a embalagem do queijo minas que comemos no café da manhã. Não como queijo sempre, seria mais uma exceção daquele momento, já que ainda vinha com torradas, tomate cereja e café preto. Tudo era novidade e repetição.

Cheguei em casa estranha, mas feliz, com o liquidificador de base inox e jarra de vidro, três calcinhas de algodão para lavar, o amendoim japonês para alguma visita e uma renovação capilar aguardando o próximo banho. A sensação estranha se diluiu durante as horas e terminou em um encontro de amigos no boteco de sempre.

Ainda não sei se espero o próximo equinócio, se me interessa essa vida de intervalos curtos e intensos — o clichê do palito de fósforo. O queijo, entretanto, ficou na lembrança e comprei um pedaço da mesma marca no supermercado. Pequeno, só para sentir o gosto bom e não deixar o inevitável enjoo de horas.

*Imagem de Cinzia Bolognesi
*publicado originalmente no Medium, em 2017.

Um parêntese para dois Mestres


No dia dois de fevereiro de 2014 um dos meus mestres se foi. Virou luz, foi pro céu, virou poeira e terra, natureza. Não importa a crença. Ele é, ao mesmo tempo, imortal em suas obras, por suas obras, através delas. Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas de todos os tempos e do mundo, sem exagero. 

A falta foi tanta, que lhe escrevi sobre aquele mesmo dia, tão bonito e pacífico em Salvador - Dia de Yemanjá -  tão brutal foi aqui no Rio. Essa aqui é minha homenagem e saudade.

Teve também esse, depois que eu li os livros de Svetlana Aleksiévitch e acho que eles têm um trabalho que se comunica bem e busca objetivos similares com o mesmo afeto, cuidado e qualidade. Svetlana virou Nobel nos últimos anos e cada livro dela poderia ser um filme dele.

Tiveram outros textos e menções ao mestre, não seria de outra forma, mas também tem essas impressões de Canções, um de seus filmes mais gostosos. Vale a leitura.

O título é sobre dois mestres, porque lembrei de outro. Um professor que virou amigo, mas sempre foi orientador da vida, das teorias, do cinema. Mohamed Bamba também nos deixou cedo demais e hoje o facebook o trouxe como uma lembrança, uma publicação minha justamente falando de Coutinho que ele generosamente compartilhou. Muitas saudades de Bamba, daquelas que o tempo não apaga, mas deixa um sorriso das lembranças felizes.

Maravilhosidades da Netflix 03.2019

Qual não foi minha ilusão em achar que conseguiria dar conta da vida e da programação televisiva de forma a publicar um por semana? Agora parei e vou deixar apenas numerado aqui pra facilitar a indexação :)

Segue as dicas da ressaca de uma semana caótica no Rio de Janeiro e outra ainda mais estranha que segue começando.

A NOITE DE DOZE ANOS
A noite de doze anos || Álvaro Brechner - 2018 || 122 min
Uruguai, anos 70. O país é mais um que atravessou anos de chumbo na América Latina e, como tal, encontrou repressores militares e vítimas subversivas. José Mujica (se tornou um dos melhores presidentes que esse planeta viu), Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernandez Huidobro foram três militantes Tupumaros presos e encarcerados em um regime especial do período obscuro de seu país. De quando foram levados do presídio comum até sua liberdade, foram 12 anos sem paradeiro, sem sol, sem vida e à beira da loucura. O filme é imenso e não por trazer apenas os personagens, mas pela forma de contar a história, com uma beleza, relevância e honestidade dignas de prêmios. Emocionante, nos faz pensar sobre o tempo que vivemos hoje. Não deixe de ver.

Aqui seguem duas matérias, en español sobre o filme, no Hacerse la critica e no Lamás Médula

O LABIRINTO DO FAUNO
O labirinto do fauno || Guillermo del Toro - 2006 || 118 min
Do aclamado diretor de A Forma da Água (que, para mim não é grandes coisas), este é um grande filme. Carrega uma fantasia que faz parte da filmografia do diretor, com toques de crueldade condizentes com a trama. É um filme bem equilibrado, com uma fotografia esplêndida e direção de arte sem igual. Merece todo o destaque e nem parece que já vai fazer treze anos. O filme conta a história de uma garota que, ao fugir de um pai tirano na Espanha dos anos 40, se perde em meio à floresta e encontra um universo diferente e desafiador. Levou três Oscar e quase cem outros prêmios.

FIVE CAME BACK
Five came back || Laurent Bouzereau - 2017 || 60 min/eps
Baseado no livro de Mark Harris e adaptado para a tv pelo mesmo, esta minissérie de três episódios conta as histórias das participações de John Huston, John Ford, Frank Capra, William Wyler e George Stevens na produção de filmes durante a Segunda Guerra Mundial. Os cinco, os maiores diretores do cinema de ficção da época, se alistaram para o exército americano e, ao verem a potência da propaganda nazista - quem não conhece, pesquise sobre Leni Riefenstahl e seu Triunfo da Vontade (1935) - entraram em 'campanha' para alimentar o moral e impulsionar a garra pela vitória dos Aliados. Documentário interessante, traz depoimentos e imagens dos filmes de todos eles e de grandes diretores do cinema americano e mundial sobre o período, com informações que poucos teriam acesso de outra maneira. Um pouco 'para os fãs de cinema', mas bastante interessante para entender as personalidades de cada mestre, seus engajamentos, diferentes produções e alcances que seus filmes tiveram.